segunda-feira, 26 de março de 2012

Magnetismo - Sugestão, Mediunismo




VIII

Magnetismo - Sugestão, Mediunismo


O corpo humano é a melhor pilha magnética que encontramos, quando aperfeiçoado para esse fim: - são os médiuns, nome que já está incluído nos dicionários científicos.
Ser médium não quer dizer ser espírita, porque existe quantidade inumerável de médiuns que não são espíritas.
Médium é o indivíduo dotado de flexibilidade, precisa para transmitir ao mundo exterior as percepções do mundo interior, ou mesmo do mundo exterior, se o agente que o transmite ainda se acha encarnado.
Assim como para a produção da eletricidade no mundo externo precisamos de aparelhos, de instrumentos com pólos combinados,- assim também necessitamos de um instrumento.
Os médiuns são os instrumentos, e a própria ciência materialista, quando trata de demonstrar o hipnotismo, procura um sujet (médium) para suas manifestações. (Vide Hipnotismo, de fajardo).
Mas encaminhemos as curas pelo magnetismo, que é arte ou ciência, como quiserem os que fazem questão de palavra.
Já vimos que fluido não é uma palavra vã, nem quer dizer mistério, mas nomeia os gases, a matéria imponderável, como da que resultam o calor, a lua, a eletricidade, etc.
Mesmer, em 1766, numa tese que publicou «De Planetarum Influxo», sustentou a existência de um fluido sutil, espalhado por toda parte e por cujo meio os corpos celestes influem nos corpos animados. Pouco depois estabeleceu-se em Viena e tentou curar pelo magnetismo mineral, aplicando o ímã ás partes doentes; mas logo observou que bastava a aplicação das mãos ao corpo para produzir o mesmo efeito; proclamou, desde então, um magnetismo animal - e declarou que encontrara o segredo de se apoderar desse fluido, e de restabelecer a saúde acumulando-o no corpo dos doentes.
Em 1874 uma comissão de sábios, na qual figuravam Darcet, Franklin, Bailly e Jussieu, foi encarregada de examinar a nova doutrina.
Jussieu um dos membros da comissão, não partilhou da opinião de seus colegas mas sim da opinião do grande médico alemão, em relatório especial que escreveu.
Afinal, depois de tanta luta, entrou o magnetismo na academia, com o nome trocado: hipnotismo.
Mas, para que bem se conheça, tanto o hipnotismo usual, como o magnetismo é indispensável o estudo do espiritismo. Aqueles, são ramificações deste: são rios que correm para o grande mar espiritual.
 E é por isso que o Doutor Gyel diz que a fisiologia materialista não explica, absolutamente, os fenômenos do hipnotismo.
O estudo acurado do magnetismo e hipnotismo, demonstra patentemente, a realidade, das curas espíritas.
Examinemos um fato narrado pelo Doutor Liebaut, publicado no «Le Ropple», antigo jornal parisiense, redatoriado pelo provecto jornalista Victor Meunier.
«Focachon, farmacêutico em Charmes, iniciou suas experiências de hipnotismo, com o sujet (médium), senhorita Eliza.
Entre outras sessões narramos a em que Focachon, servindo-se de dois pedaços de tela de Albespeyres, colocou uma em cada braço do médium, sugestionando-a para que em um só braço se produzisse a vesicação. O resultado foi surpreendente. Em seguida, projetou o seu pensamento sobre outra parte do braço, e, sem substância alguma vesicante, também produziu a mesma vesicação, que em outra parte do braço fora produzida pela tela Albespeyres.
Essas experiências foram assistidas pelos professores, Boaunis e Bernheim, de Nancy, Lïgeois, Faculdade de Direito; Drs. Boulard e Liebault.
Como explicar esse fato, sem admitir a ação fluido-terapeutica?
Dirão os parladores que o farmacêutico agiu pela sugestão.
Mas, que é a sugestão?
Certamente não é uma palavra vã mas ha de forçosamente designar alguma coisa.
Não seria mais racional, em vez de preferirem palavras que nada explicam pensar que uma camada de matéria fluídica, com a propriedade de tirar a ação do caustico foi projetada pela ação magnética, entre a pele e a tela, para inutilizar esta?
Não seria mais lógico dizer que, ou o espírito do farmacêutico, ou outro, que se utilizou da sua mediunidade, concentrou por exemplo, duas partes de oxigênio com duas de hidrogênio no lugar em que se produziu a outra vesicação, sem ter sido lá aplicado vesicatorio algum?
O grande Aksakof diz, com muita razão: «o magnetismo já criou a psicologia experimental e acabará por fazer compreender os fatos de animismo e espiritismo».
No próximo capitulo, estudaremos a correspondência sobre o magnetismo vital, do ilustre médico Doutor Billot aproveitando os dados que nos fornece o missionário do espiritismo, na França, Dr. Gabriel Delanne.

        Cairbar Schutel

        Histeria e Fenômenos Psíquicos

          As Curas Espíritas

          1911






 

sexta-feira, 16 de março de 2012

A segunda vista






As percepções que ocorrem no estado sonambúlico, sendo de
uma outra natureza do que aquelas do estado de vigília, não
podem ser transmitidas pelos mesmos órgãos. É constante
que, neste caso, a visão não se efetue pelos olhos que, aliás,
estão geralmente fechados, e que se pode mesmo pôr ao
abrigo dos raios luminosos de maneira a afastar toda suspeita.
A visão à distância, e através de corpos opacos, exclui, além
disso, a possibilidade do uso dos órgãos ordinários da visão. É
preciso, pois, de toda necessidade, admitir no estado de
sonambulismo, o desenvolvimento de um sentido novo, sede
de faculdades e de percepções novas que nos são
desconhecidas, e das quais não podemos nos dar conta senão
por analogia e pelo raciocínio. Para isso, se concebe, nada de
impossível; mas qual é a sede desse sentido? É o que não é
fácil de determinar com exatidão. Os próprios sonâmbulos
não dão, a esse respeito, nenhuma indicação precisa. Ocorre
que, para melhor verem, aplicam os objetos sobre o epigastro,
outro sobre a fronte, outro sobre o occipital. Esse sentido não
parece, pois, circunscrito num lugar determinado; é certo,
contudo, que a sua maior atividade reside nos centros
nervosos. O que é positivo é que o sonâmbulo vê. Por onde e
como? É o que ele mesmo não pode definir.
Notemos, no entanto, que, no estado sonambúlico, os
fenômenos da visão e as sensações que o acompanham, são
essencialmente diferentes daquele que ocorre no estado
ordinário; também não nos serviremos da palavra ver senão
por comparação, e na falta de um termo que, naturalmente,
não temos para uma coisa desconhecida. Um povo de cegos
de nascença, de nenhum modo, teria palavra para exprimir a
luz, e relacionaria as sensações que ela faz sentir a alguma
daquelas que compreende porque a ela está submetido.
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Procurou-se explicar a um cego a impressão viva e brilhante
da luz sobre os olhos. Eu compreendo, disse ele, é como o
som da trombeta. Um outro, um pouco mais prosaico, sem
dúvida, a quem se quis fazer compreender a emissão dos
raios em feixes ou cones luminosos, respondeu: Ah! sim; é
como um objeto de forma cônica. Estamos nas mesmas
condições com respeito à lucidez sonambúlica; somos
verdadeiros cegos, e, como estes últimos para a luz, nós a
comparamos àquilo que, para nós, tem mais analogia com a
faculdade visual; mas se quisermos estabelecer uma analogia
absoluta entre essas duas faculdades e julgar uma pela outra,
necessariamente, nos enganaremos como os dois cegos que
acabamos de citar. Está aí o erro de quase todos aqueles que
procuram, supostamente, se convencer pela experiência;
querem submeter a clarividência sonambúlica às mesmas
provas que da visão comum, sem sonhar que não há relações
entre elas a não ser o nome que lhes damos, e como os
resultados não respondem sempre à expectativa, acham mais
simples negar.
Se procedermos por analogia, diremos que o fluido magnético,
espalhado por toda a Natureza, e do qual os corpos animados
parecem ser os principais focos, é o veículo da clarividência
mediúnica, como o fluido luminoso é o veículo das imagens
percebidas pela nossa faculdade visual. Ora, do mesmo modo
que o fluido luminoso torna transparente os corpos que
atravessa livremente, o fluido magnético, penetrando todos
os corpos sem exceção, não há, de nenhum modo, corpos
opacos para os sonâmbulos. Tal é a explicação, a mais
simples e a mais natural, da lucidez, falando do nosso ponto
de vista. Nós a cremos justa, porque o fluido magnético,
incontestavelmente, desempenha um papel importante nesse
fenômeno; ela, entretanto, não poderia dar conta de todos os
fatos. Há uma outra que os abarca a todos, mas à qual
algumas explicações preliminares são indispensáveis.
Na visão a distância, o sonâmbulo não distingue um objeto ao
longe como poderíamos fazê-lo através de um binóculo. Não é,
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de nenhum modo, esse objeto que se aproxima dele por uma
ilusão óptica, É ELE MESMO QUE SE APROXIMA DO OBJETO.
Ele o vê precisamente como se estivesse ao lado dele; ele
mesmo se vê no lugar que observa; em uma palavra, ele se
transporta. Seu corpo, nesse momento, parece aniquilado,
sua palavra é mais abafada, o som de sua voz tem alguma
coisa de estranha; a vida animal parece se extinguir nele; a
vida espiritual está toda inteira no lugar onde o seu
pensamento o transporta; só a matéria fica no mesmo lugar.
Há, pois, uma porção de nosso ser que se separa de nosso
corpo para se transportar, instantaneamente, através do
espaço, conduzida pelo pensamento e a vontade. Essa porção,
evidentemente, é imaterial; de outro modo, ela produziria
alguns efeitos da matéria; é a essa parte de nós mesmos que
chamamos a alma.
Sim, é a alma que dá ao sonâmbulo as faculdades
maravilhosas das quais goza; a alma que, em circunstâncias
dadas, se manifesta se isolando em parte e
momentaneamente de seu envoltório corporal. Para quem
observou atentamente os fenômenos do sonambulismo em
toda a sua pureza, a existência da alma é um fato patente, e
a idéia de que tudo se acaba em nós com a vida animal é,
para ele, uma insensatez demonstrada até à evidência;
também se pode dizer, com alguma razão, que o magnetismo
e o materialismo são incompatíveis; se há alguns
magnetizadores que parecem se afastar dessa regra, e que
professam doutrinas materialistas, é que não fizeram, sem
dúvida, senão um estudo muito superficial dos fenômenos
físicos do magnetismo, e que não procuraram seriamente a
solução do problema da visão a distância. Qualquer que ele
seja, jamais vimos um único sonâmbulo que não estivesse
penetrado de um profundo sentimento religioso, quaisquer
que possam ser as suas opiniões no estado de vigília.
Retornemos à teoria da lucidez. A alma, sendo o princípio das
faculdades do sonâmbulo, é nela que reside, necessariamente,
a clarividência, e não em tal ou tal parte circunscrita de nosso
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corpo. É porque o sonâmbulo não pode designar o órgão
dessa faculdade como designaria o olho para a visão exterior:
ele vê por todo o seu ser moral, quer dizer, por toda a sua
alma, porque a clarividência é um dos atributos de todas as
partes da alma, como a luz é um dos atributos de todas as
partes do fósforo. Por toda a parte, pois, onde a alma pode
penetrar, há clarividência; daí a causa da lucidez através de
todos os corpos, sob os envoltórios mais espessos e em todas
as distâncias.
Uma objeção se apresenta, naturalmente, a esse sistema, e
devemos nos apressar em responder a ela. Se as faculdades
sonambúlicas são as mesmas da alma liberta de sua matéria,
por que essas faculdades não são constantes? Por que certos
sujeitos são mais lúcidos do que outros? Por que a lucidez é
variável no mesmo sujeito? Concebe-se a imperfeição física
de um órgão; não se concebe a da alma.
A alma se liga ao corpo por laços misteriosos, que não nos
fora dado a conhecer antes que o Espiritismo nos tivesse
demonstrado a existência e o papel do perispírito. Tendo essa
questão sido tratada de maneira especial na Revista e nas
obras fundamentais da Doutrina, não nos deteremos mais
aqui; limitamo-nos a dizer que é pelos nossos órgãos
materiais que a alma se manifesta ao exterior. Em nosso
estado normal, essas manifestações estão naturalmente
subordinadas à imperfeição do instrumento, do mesmo modo
que o melhor operário não pode fazer uma obra perfeita com
más ferramentas. Por admirável que seja, pois, a estrutura de
nosso corpo, que ele haja tido a previdência da Natureza em
relação ao nosso organismo para o cumprimento de suas
funções vitais, há distância desses órgãos, submetidos a
todas as perturbações da matéria, à sutileza de nossa alma.
Por muito tempo, pois, que a alma se prenda ao corpo, sofre lhe
os entraves e as vicissitudes.
O fluido magnético não é a alma, é um laço, um intermediário
entre a alma e o corpo; é pela sua maior ou menor ação
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sobre a matéria que torna a alma mais ou menos livre; daí a
diversidade das faculdades sonambúlicas. O sonâmbulo é o
homem que não está desembaraçado senão de uma parte de
suas vestes, e cujos movimentos são ainda constrangidos por
aquelas que lhe restam.
A alma não terá sua plenitude e inteira liberdade de suas
faculdades, senão quando houver sacudido os últimos cueiros
terrestres, como a borboleta sai de sua crisálida. Se um
magnetizador fosse tão potente para dar à alma uma
liberdade absoluta, o laço terrestre seria rompido e a morte
disso seria a conseqüência imediata. O sonambulismo nos faz,
pois, colocar um pé na vida futura; ele afasta um lado do véu
sob o qual se escondem as verdades que o Espiritismo nos faz
entrever hoje; mas não a conheceremos, em sua essência,
senão quando estivermos inteiramente desembaraçados do
véu material que a obscurece neste mundo.
Obras Póstumas: Alan Kardec
Fonte: www.autoresespiritasclassicos.com

quinta-feira, 15 de março de 2012

O Progresso na Imortalidade

Capítulo VII
O Progresso na Imortalidade

(Complemento filosófico
publicado pelo jornal Le Devoir)

Embora a humanidade avance pouco a pouco na estrada do progresso, pode-se dizer que a imensa maioria de seus membros marcha através da vida como em meio de uma noite obscura, ignorando de onde vem, não sabendo para onde vai, não tendo jamais sonhado com o objetivo real da existência.
Espessas trevas dominam a razão humana; os raios destes poderosos focos, que são a justiça e a verdade, só chegam a ela pálidos, enfraquecidos e insuficientes para aclarar os caminhos sinuosos por onde as inúmeras legiões seguem em marcha, para fazer brilhar a seus olhos o objetivo ideal e distante.
Ignorante de seus destinos, indeciso entre o preconceito e o erro, o homem maldiz, por vezes, a vida. Desfalecendo ao peso do seu fardo, lança sobre seus semelhantes a causa das provas que ele engendra e sofre, muitas vezes por sua imprevidência. Revoltado contra Deus, que ele acusa de injusto, em sua loucura e seu desespero chega mesmo, algumas vezes, a desertar do combate salutar, da luta que só pode fortificar sua alma, aclarar seu julgamento, prepará-lo para trabalhos de ordem mais elevada.
Por que é assim? Por que o homem desce frágil e desarmado na grande arena onde se trava, sem tréguas e sem descanso, a eterna e gigantesca batalha? É que esse globo terrestre é simplesmente um dos degraus inferiores da escala dos mundos e nele moram apenas espíritos novos, isto é, almas nascidas recentemente com a razão.
A matéria reina soberana em nosso mundo e curva sob seu jugo até os melhores dentre nós; limita nossas faculdades, paralisa nossos anseios para o bem e nossas aspirações para o ideal.
Assim, para discernir o porquê da vida, para conhecer sua razão de ser, para entrever a lei suprema que rege as almas e os mundos é preciso saber libertar-se dessas pesadas influências, liberar-se das preocupações de ordem material, de todas essas coisas passageiras e volúveis que acobertam nosso espírito, dificultando nossos julgamentos. Somente nos elevando algumas vezes pelo pensamento, acima dos próprios horizontes da vida, fazendo abstração do tempo e do espaço e planando, de certa forma, acima dos pormenores da existência, é que perceberemos a verdade.
Com um esforço de vontade, abandonemos por um instante a Terra e subamos essas encostas sublimes. Do alto dos cumes intelectuais se desenrolará, para nós, o imenso panorama dos tempos sem fim e dos espaços sem limite. Do mesmo modo que o soldado perdido na luta só vê confusão em seu derredor, enquanto que o general, cujo olhar alcança todas as peripécias da batalha, calcula e prevê seus resultados; da mesma forma que o viajante, perdido nas dobras do terreno, subindo a montanha, pode vê-las se fundir numa planície grandiosa, assim a alma humana, dos cumes onde ela plana, longe dos ruídos da Terra, longe dos recantos obscuros, descobre a harmonia universal. O que embaixo lhe parecia confuso, inexplicável e injusto, visto do alto se liga e se aclara.
As sinuosidades da existência se endireitam. Tudo se une, tudo se encadeia. Ao espírito deslumbrado aparece a ordem majestosa que regula o curso das existências e a marcha dos universos.
Dessas alturas iluminadas, a vida não é mais, aos nossos olhos, como aos da multidão, a busca vã de satisfações efêmeras, porém um meio de aperfeiçoamento intelectual, de elevação moral, uma escola onde se aprende a doçura, a paciência e o dever.
Esta vida, para ser eficaz, não pode ser isolada. Fora de seus limites, além do nascimento e da morte, vemos, numa espécie de penumbra, desenrolar-se uma multidão de existências através das quais, à custa do trabalho e do sofrimento, conquistamos, peça por peça, pedaço por pedaço, o pouco de saber e de qualidades que possuímos e pelos quais também conquistaremos o que nos falta: uma razão perfeita, uma ciência sem limites e um amor infinito por tudo quanto vive.
A imortalidade, semelhante a uma cadeia sem fim, se desenrola para cada um de nós na imensidade dos tempos. Cada existência é um elo que se liga, para trás e para frente, em uma cadeia distinta, a uma vida diferente, porém solidária com as outras.
O futuro é a conseqüência do passado e, de degrau em degrau, o ser se eleva e cresce. Artífice de seus próprios destinos, o homem, livre e responsável, escolhe seu caminho e se essa rota é difícil, as quedas que terá, os calhaus e os espinhos que irão dilacerá-lo terão como efeito desenvolver sua experiência e fortificar sua razão nascente.
A lei suprema do mundo é, portanto, o progresso incessante, a ascensão dos seres para Deus, fonte das perfeições. Das profundezas do abismo, das mais rudimentares formas da vida, por uma rota infinita e com o auxílio de transformações sem conta, nós nos aproximamos dele. No fundo de cada alma o Eterno colocou o germe de todas as faculdades e de todas as potências; cabe-nos fazê-las eclodir por nossos esforços e por nossas lutas!
Encarado por esses aspectos novos, nosso progresso, nossa vindoura felicidade é obra nossa e a graça não tem mais razão de ser, pois a justiça brilha afinal sobre o mundo, porque se todos lutamos e sofremos, todos seremos salvos.
Igualmente se revela aqui, em toda a sua grandeza, o papel da dor e sua utilidade para o progresso dos seres. Cada globo que rola no espaço é uma vasta oficina onde a substância das almas é incessantemente trabalhada.
Assim como o grosseiro mineral, sob a ação do fogo e das águas, se transforma, pouco a pouco, em um puro metal, também a alma humana, sob os pesados martelos da dor, se transforma e se fortifica. É no meio das provas que se forjam os grandes caracteres. A dor é a suprema purificação, é a fornalha onde se fundem todas as escórias impuras que corrompem a alma: o orgulho, o egoísmo e a indiferença.
É a única escola onde se afinam as sensações delicadas, onde se aprendem a piedade e a resignação estóicas. Os gozos sensuais, ligando-nos à matéria, retardam nossa elevação, enquanto que o sacrifício e a abnegação nos desligam, por antecipação, dessa espessa ganga e nos preparam para novas etapas e para uma ascensão mais alta. Assim a alma se eleva na escalada magnífica dos mundos e percorre o campo sem limites dos espaços e dos tempos.
A cada conquista sobre as paixões, a cada passo à frente, engrandecida e purificada, ela vê seus horizontes se alargarem e percebe, cada vez mais distintamente, a grande harmonia das leis e das coisas e nela participa de uma forma bem estreita e mais efetiva.
Então para ela o tempo se apaga e os séculos se escoam como segundos. Unida a suas irmãs, companheiras da erraticidade, ela prossegue sua marcha eterna no seio de uma luz cada vez maior.
De nossas buscas e de nossas meditações se destaca assim uma grande lei: a pluralidade das existências da alma. Nós vivemos antes do nascimento e viveremos depois da morte e esta lei nos dá a chave de problemas até agora insolúveis, pois somente ela explica a desigualdade das condições e a infinita variedade dos caracteres e das aptidões. Conhecemos ou conheceremos, sucessivamente, todas as fases da vida terrestre e percorreremos todos os meios. No passado, nós éramos como esses selvagens que povoam os continentes atrasados; no futuro, nós nos poderemos elevar à grandeza desses gênios imortais, desses espíritos gigantes que, semelhantes a faróis luminosos, iluminam a marcha da humanidade.
O tempo e o trabalho são os dois elementos de nosso progresso e a lei da reencarnação mostra, de uma forma brilhante, a soberana justiça que reina sobre todos os seres. Passo a passo, nos forjamos e quebramos, nós próprios, nossos grilhões. As provas terríveis, que alguns dentre nós sofrem, são a conseqüência de uma conduta do passado.
O déspota renasce escravo; a mulher altiva e vaidosa por sua beleza tomará um corpo enfermo e sofredor; o preguiçoso voltará como servo, curvado sob uma tarefa ingrata, e aquele que fez sofrer, por seu turno, sofrerá. É inútil procurar o inferno nas regiões desconhecidas e distantes. O inferno está em torno de nós e se oculta nas dobras ignoradas da alma culpada, na qual só a expiação pode fazer cessar as dores.
Entretanto, dirão, se outras vidas precederam o nascimento, por que perdemos sua lembrança e como poderemos resgatar com sucesso faltas esquecidas?
A lembrança! Ela não seria mais que um terrível grilhão atado aos nossos pés! Mal saída das idades da fúria, escapando, ontem, da bestialidade feroz, qual deve ser esse passado de cada um de nós? Pelas etapas vencidas, quantas lágrimas temos feito correr e quanto sangue temos derramado! Conhecemos o ódio e praticamos a injustiça. Que fardo moral essa longa perspectiva de faltas para um pobre espírito já débil e cambaleante! Depois, a lembrança de nosso próprio passado estaria ligada, de uma forma íntima, à lembrança do passado de outras pessoas. Que desagradável situação para o culpado, marcado assim com o ferro em brasa pela eternidade!
E os ódios, os erros se perpetuariam pela mesma razão, criando divisões profundas e eternas no seio dessa humanidade já tão sacrificada. Sim, Deus fez bem em apagar de nossos frágeis cérebros a lembrança de um passado perigoso. Após termos bebido as águas do Léthé,[i] renascemos numa nova vida. Uma educação diferente, uma civilização mais ampla faz espantar os fantasmas que perturbaram outrora nosso espírito.
Aliviados dessa bagagem pesada, avançamos com passo mais rápido pelas sendas que nos são abertas.
Entretanto esse passado não está tão extinto que não lhe possamos entrever alguns vestígios. Se, livres das influências exteriores, descermos ao fundo de nosso ser, se analisarmos, com cuidado nossas preferências e nossas aspirações, descobriremos coisas que nada em nossa atual existência e na educação recebida pode explicar.
Partindo daí, chegaremos a reconstituir esse passado, senão em seus pormenores, pelo menos em suas grandes linhas. Quanto às faltas, ocasionando, nesta vida, uma expiação consentida, ainda que apagadas momentaneamente aos nossos olhos, sua causa primária não permanece menos visível para sempre, isto é, nossas paixões, nosso caráter ardente que novas encarnações terão como meta curvar e domar.
Assim, pois, se deixamos sob o esquecimento as mais perigosas lembranças, carregamos, pelo menos, conosco o fruto e as conseqüências dos trabalhos recentemente conquistados, isto é, uma consciência, um julgamento e um caráter talhados por nós próprios. O que chamamos desigualdade não é outra coisa senão a herança intelectual e moral que as vidas passadas nos legam.
Cada vez que se abrem, para nós, as portas da morte, quando, separada do jugo material, nossa alma escapa de sua prisão de carne para entrar novamente no império dos espíritos, então o passado reaparece inteiramente diante dela. Uma após outra, na rota percorrida, ela revê suas existências: as quedas, as conquistas e as marchas rápidas. Ela se julga a si mesma, medindo o caminho percorrido, e no espetáculo de seus sucessos ou de suas vergonhas, colocados diante dela, encontra seu castigo ou sua recompensa.
Sendo o aperfeiçoamento intelectual e moral da alma o objetivo da vida, qual condição e qual meio nos convém melhor para conseguir esse objetivo? O homem pode trabalhar para essa perfeição em todas as condições e em todos os meios sociais, porém trabalhará mais vitoriosamente em determinadas condições.
A riqueza proporciona ao homem poderosos meios de estudo e lhe permite dar a seu espírito uma cultura mais desenvolvida e mais perfeita; ela põe em suas mãos facilidades maiores para aliviar seus irmãos infelizes e participar de tarefas úteis para lhes melhorar a sorte. Todavia são raros os que consideram como um dever trabalhar para aliviar a miséria ou pela instrução e melhoria de seus semelhantes.
A riqueza esteriliza, muitas vezes, o coração humano; extingue essa chama interior, esse amor ao progresso e às melhorias sociais, que aquece todas as almas generosas; coloca uma barreira entre os poderosos e os humildes e isola, numa esfera, os deserdados desse mundo, onde, por conseqüência, suas necessidades e seus males são ignorados e desconhecidos.
A miséria também tem seus horrorosos perigos: a degradação dos caracteres, o desespero e o suicídio, mas enquanto a riqueza nos torna indiferentes e egoístas, a pobreza, aproximando-nos dos humildes, nos faz compartilhar de suas dores. É preciso ter sofrido para avaliar o sofrimento dos outros. É então que os poderosos, no meio das honras, se invejam entre si e procuram rivalizar, em ostentação, os pequenos, aproximados pela necessidade e que vivem, por vezes, em uma tocante confraternização.
Olhai os pássaros de nosso país durante os meses de inverno, quando o céu está sombrio, quando a terra está coberta com um branco manto de neve; agarrados uns aos outros, na borda de um telhado, eles se aquecem mutuamente, em silêncio. A necessidade os une. Contudo, nos belos dias, com o Sol resplandecendo e a provisão abundante, eles piam quanto podem, perseguem-se, batem-se e se machucam. Assim é o homem. Dócil, afetuoso para com seus semelhantes nos dias de tristeza, a posse dos bens materiais muitas vezes o torna esquecido e insensível.
Uma condição modesta faz mais bem ao espírito desejoso de progredir, de adquirir as virtudes necessárias para seu progresso moral. Longe do turbilhão dos prazeres fugazes, ele julgará melhor a vida, dará à matéria o que é necessário para a conservação de seus órgãos, porém evitará cair em hábitos perniciosos, tornar-se presa das inúmeras necessidades factícias que são o flagelo da humanidade. Ele será sóbrio e laborioso, contentando-se com pouco, apegando-se aos prazeres da inteligência e às alegrias do coração.
Fortificado assim contra os assaltos da matéria, o sábio, sob a pura luz da razão, verá resplandecer seu destino. Esclarecido quanto ao objetivo da vida e ao porquê das coisas, ficará firme e resignado diante da dor, que ele aproveitará para sua depuração e seu progresso.
Enfrentará a provação com coragem, sabendo que ela é salutar, que ela é o choque que rasga nossas almas e que só por este rasgão derrama tudo quanto de fel e de amargura há em nós.
E se os homens se riem dele, se ele é vítima da intriga e da injustiça, aprenderá a suportar, pacientemente, seus males, lançando seus olhares para vós, oh! nossos irmãos mais velhos, para Sócrates bebendo a cicuta, para Jesus crucificado e para Joana na fogueira. Haverá consolação na lembrança de que os maiores, os mais virtuosos e os mais dignos sofreram e morreram pela humanidade.
Após uma existência bem preenchida, chegará a hora solene e é com calma, sem desgostos, que virá a morte. A morte que os homens cercam com um sinistro aparato, a morte, espantalho dos poderosos e dos sensuais e que para o pensador austero é a libertação, a hora da transformação, a porta que se abre para o império luminoso dos espíritos.
Esse pórtico das regiões extraterrestres será penetrado com serenidade, se a consciência, separada da sombra da matéria, erguer-se como um juiz, representante de Deus, perguntando? “Que fizeste da vida?” e ele responder: “Lutei, sofri, amei! Ensinei o bem, a verdade e a justiça; dei a meus irmãos o exemplo do correto e da doçura; aliviei as dores dos que sofrem e consolei os que choram. Agora, que o Eterno me julgue, pois estou em suas mãos!”
Homem, meu irmão, tem fé em teu destino, porque ele é grande. Confia nas amplas perspectivas, porque ele põe em teu pensamento a energia necessária para enfrentar os ventos e as tempestades do mundo. Caminha, valente lutador, sobe a encosta que conduz a esses cimos que se chamam virtude, dever e sacrifício. Não pares no caminho para colher as florzinhas do campo, para brincar com os calhaus dourados. Para frente, sempre adiante.
Olha nos esplêndidos céus esses astros brilhantes, esses sóis incontáveis que carregam, em suas evoluções prodigiosas, brilhantes cortejos de planetas. Quantos séculos acumulados foram precisos para formá-los e quantos séculos serão precisos para dissolvê-los.
Pois bem, chegará um dia em que todos esses sóis serão extintos, ou esses mundos gigantescos desaparecerão para dar lugar a novos globos e a outras famílias de astros emergindo das profundezas. Nada do que vês hoje existirá. O vento dos espaços terá varrido para sempre a poeira desses mundos, porém tu viverás sempre, prosseguindo tua marcha eterna no seio de uma criação renovada incessantemente. Que serão então, para tua alma depurada e engrandecida, as sombras e os cuidados do presente? Acidentes fugazes de nossa caminhada, que só deixarão, no fundo de nossa memória, lembranças tristes e doces.
Diante dos horizontes infinitos da imortalidade, os males do passado e as provas sofridas serão qual uma nuvem fugidia no meio de um céu sereno.
Considera, portanto, no seu justo valor, as coisas da Terra. Não as desdenhes porque, sem dúvida, elas são necessárias ao teu progresso e tua obra é contribuir para o seu aperfeiçoamento, melhorando a ti mesmo, mas que tua alma não se agarre exclusivamente a elas e que busque, antes de tudo, os ensinamentos nela contidos.
Graças a eles compreenderás que o objetivo da vida não é o gozo, nem a felicidade, porém o desenvolvimento por meio do trabalho, do estudo e do cumprimento do dever, dessa alma, dessa personalidade que encontrarás além do túmulo, tal como a tenhas feito, tu mesmo, no curso desta existência terrestre.





[i]    Léthé: rio dos infernos, cujo nome significa esquecimento. Os homens bebiam de suas águas para esquecer (conforme o Noveau Petit Larousse Illustré) (N.E.).
Léon Denis: O progresso
Fonte:


segunda-feira, 5 de março de 2012

hornurias@.com: O Porquê da Vida

http://hornuriascom.blogspot.com/2012/03/o-porque-da-vida.html?spref=bl: VI Justiça e progresso A lei superior do universo é o progresso...

O Porquê da Vida

 

 

                                   VI
                        Justiça e progresso

    A lei superior do universo é o progresso incessante, a ascensão dos seres para Deus, foco das perfeições. Das profundezas do abismo da vida, por uma rota infinita e uma evolução constante, nos aproximamos d’Ele. No fundo de cada alma está depositado o germe de todas as faculdades, de todos os poderes cabendo a ela fazê-los eclodir por seus esforços e seus trabalhos. Visto sob este aspecto, nosso avanço e felicidade futura, são obra nossa. A Graça não tem mais razão de ser. A justiça se irradia sobre o mundo porque, se todos tivermos lutado e sofrido, todos seremos salvos.
    Da mesma forma, revela-se aqui em toda sua grandeza a função da dor e sua utilidade para o avanço dos seres. Cada globo, girando no espaço, é vasta oficina onde incessantemente trabalha a substância espiritual. Assim como o mineral grosseiro, quando sob a ação do fogo e da água, transforma-se pouco a pouco em metal puro, também a alma humana, sob os pesados martelos da dor se transforma e fortifica. É por meio das provas que se temperam os grandes caracteres. A dor é a purificação suprema, a fornalha onde se fundem todos os elementos impuros que nos mancham: o orgulho, o egoísmo e a indiferença. É a única escola onde se refinam as sensações, onde se aprende a piedade e a resignação estóica. Os gozos sensuais, ligando-nos à matéria, retardam nossa elevação, enquanto que o sacrifício e a abnegação, nos libertam por antecipação dessa espessa ganga, nos preparam para novas etapas, para uma ascensão mais alta. A alma, purificada, santificada pelas provas, vê cessar as encarnações dolorosas. Deixa para sempre os globos materiais e eleva-se sobre a escala magnífica dos mundos felizes. Percorre o campo sem limites dos espaços e das idades. A cada passo adiante, vê seus horizontes se alargarem e sua esfera de ação crescer; percebe mais e mais distintamente a grande harmonia das leis e das coisas, delas participando de uma maneira mais estreita, mais efetiva. Então o tempo se eclipsa, os séculos se escoam como horas. Unida às suas irmãs, companheiras da eterna viagem, prossegue sua ascensão intelectual e moral no seio de uma luz sempre grandiosa.
    De nossas observações e pesquisas se destaca, assim, uma grande lei: a pluralidade das existências da alma. Já tínhamos vivido antes do nascimento e reviveremos após a morte. Esta lei dá a chave desses problemas, até aqui insolúveis. Por si só, explica a desigualdade das condições, a variedade infinita das aptidões e dos caracteres. Temos conhecido ou conheceremos sucessivamente todas as fases da vida social e percorreremos todos os seus meios. No passado, éramos como os selvagens que povoavam os continentes atrasados; no porvir, poderemos nos elevar à altura dos gênios imortais, dos espíritos gigantes que, semelhantes a faróis luminosos, aclaram a marcha da humanidade. A história deles é nossa história e, dela participantes, percorremos os seus árduos caminhos, suportamos as evoluções seculares relatadas nos anais das nações. Tempo e trabalho: eis os elementos de nosso progresso.
    Esta lei da reencarnação mostra, de maneira evidente, a soberana justiça que reina sobre todos os seres. A cada vez forjamos e quebramos nossos próprios grilhões. As provas assustadoras que alguns entre nós sofrem são, em geral, conseqüência de nossa conduta passada. O déspota torna-se escravo; a mulher altiva, vaidosa de sua beleza, retoma em um corpo informe, sofredor; o ocioso torna-se mercenário, curvado sob um serviço ingrato. Aquele que tem feito sofrer sofrerá por sua vez. Inútil procurar o inferno nas regiões desconhecidas ou longínquas, o inferno está em nós, esconde-se nos recessos ignorados da alma culpada, da qual somente a expiação pode fazer cessar as dores. Não há penas eternas. Mas, dirá você, se outras vidas precederam o nascimento, por que delas perdemos a lembrança? Como poderíamos expiar com proveito quando as faltas são esquecidas?
    A lembrança não seria uma pesada bola presa aos nossos pés? Penosamente saídos das idades de furor e de bestialidade, como deve ter sido esse passado de cada um de nós! Através as etapas transpostas, quantas lágrimas vertidas, quanto sangue derramado por nossos atos! Conhecemos o ódio e praticamos a injustiça. Que fardo moral seria esta longa perspectiva de faltas para espíritos ainda débeis e vacilantes!
    E depois, a lembrança de nosso próprio passado não estaria ligada de maneira íntima às lembranças do passado dos outros? Que situação para o culpado, marcado pelo ferro em brasa, por toda a eternidade! Pela mesma razão, os ódios e os erros se perpetuariam, cavando divisões profundas, indeléveis, no seio desta humanidade já tão dilacerada. Deus fez bem apagando de nossos fracos cérebros a lembrança de um passado terrível. Após haver sorvido a beberagem do esquecimento, renascemos para uma nova vida. Uma educação diferente, uma civilização mais adiantada, faz desvanecer as quimeras que outrora visitaram nosso espírito. Aliviados dessa bagagem bloqueante, avançamos com passos mais rápidos nas vias que nos são abertas.
    Todavia, esse passado não está apagado de tal maneira que não possamos entrever alguns de seus vestígios. Se nos desapegarmos das influências exteriores, descermos ao fundo de nosso ser; se nos analisarmos com cuidado, nossos gostos e aspirações, descobriremos coisas, em nossa existência atual e com a educação recebida, que nada poderia explicar. Partindo daí, chegaremos a reconstituir esse passado, senão em todos os seus detalhes, pelo menos em suas grandes linhas. Quanto às faltas, que implicam numa expiação necessária nesta vida, ainda que apagadas momentaneamente aos nossos olhos, sua causa primeira continua existindo, sempre visível, qual seja, nossas paixões e caracteres impetuosos, que as novas encarnações têm por objetivo domar, dobrar.
    Assim então, se deixamos no limiar da vida as mais perigosas lembranças, levamos ao menos conosco os frutos e as conseqüências dos trabalhos realizados, isto é uma consciência, um julgamento, um caráter tal qual o houvermos talhado. Tudo que nos é inato não é outra coisa senão a herança intelectual e moral que as vidas desvanecidas nos legaram.
    E cada vez que se abrem para nós as portas da morte, quando, liberta do jugo material, nossa alma escapa de sua prisão na carne para reentrar no império dos Espíritos, então seu passado se reconstitui pouco a pouco. Uma após outra, sobre o caminho seguido, revê suas existências, as quedas, os altos, os avanços rápidos. Julga a si mesma, medindo o caminho percorrido. No espetáculo de seus descréditos ou de seus méritos, expostos ante ela, encontra sua punição ou sua recompensa.
    Sendo o propósito da vida o aperfeiçoamento intelectual e moral do ser, que condições, que meios nos conviriam melhor para realizá-lo? O homem pode trabalhar em seu aperfeiçoamento em todas as condições, em todos os meios sociais; entretanto, se sairia bem mais facilmente dentro de certas condições determinadas.
    A riqueza proporciona ao homem meios de estudo poderosos; permite-lhe dar ao seu espírito uma cultura mais desenvolvida e mais perfeita; coloca em suas mãos facilidades maiores para aliviar seus irmãos infelizes, participando por meio de fundações de utilidade pública, visando o melhoramento de seus destinos. Mas são raros os que consideram como um dever trabalhar no alívio da miséria, na instrução e melhoria de seus semelhantes.
    A riqueza, freqüentemente, seca o coração humano; extingue essa chama interior, esse amor ao progresso e às melhorias sociais que anima toda alma generosa; ergue uma barreira entre os poderosos e os humildes; leva a viver em um meio onde não se alcança os deserdados desse mundo e onde, por conseqüência, suas necessidades e males permanecem quase sempre ignorados e desconhecidos.
    A miséria também tem seus pavorosos perigos: a degradação dos caracteres, o desespero, o suicídio. Mas, enquanto a riqueza nos torna indiferentes e egoístas, a pobreza, ao nos aproximar dos humildes, nos faz compartilhar a dor. É preciso ter sofrido, por si mesmo, para apreciar os sofrimentos do outro. Enquanto os poderosos, no seio dos honrados, invejam-se e procuram rivalizar em brilho, os pequenos, aproximados pela necessidade, vivem, por vezes, em tocante confraternização.
    Observem as aves de nossa região durante os meses de inverno, quando o céu está sombrio, quando a terra está coberta de um manto branco de neve; apertados uns contra os outros, na borda de um telhado, aquecem-se mutuamente em silêncio. A necessidade os une. Mas vêm os belos dias, o sol resplandecente, a provisão abundante, e eles chilreiam, perseguem-se, combatem-se, dilaceram-se. Assim é o homem. Doce, afetuoso com seus semelhantes nos dias de tristeza, a posse de bens materiais o torna, muito freqüentemente, esquecido e duro.
    Uma condição modesta convém melhor ao espírito desejoso de progredir, de adquirir as virtudes necessárias à sua ascensão moral. Longe do turbilhão dos prazeres enganadores, aquilatará melhor a vida. Solicitará da matéria o que é necessário à conservação de seu organismo, mas evitará cair nos hábitos perniciosos, tornar-se presa das inumeráveis necessidades fictícias que são os flagelos da humanidade. Será sóbrio e trabalhador, contentando-se com pouco, ligando-se, acima de tudo, aos prazeres da inteligência e às jóias do coração.
    Assim, fortificado contra os assaltos da matéria, o sábio, sob a pura luz da razão, verá resplandecer seu destino. Esclarecido sobre o objetivo da vida e o porquê das coisas, permanecerá firme, resignado diante da dor; saberá fazê-la servir à sua depuração, ao seu adiantamento. Afrontará a prova com coragem, compreendendo ser salutar, que é o choque que rasgará nossas almas, e que é só por esse dilaceramento que poderá ser derramado o fel que está em nós. Se os homens rirem dele, se for vítima da injustiça e da intriga, aprenderá a suportar pacientemente seus males, dirigindo seus pensamentos para nossos irmãos mais velhos: Sócrates bebendo a cicuta, Jesus na cruz, Joana na fogueira. Consolar-se-á no pensamento de que os maiores, os mais virtuosos, os mais dignos, sofreram e morreram pela humanidade.
    E quando, enfim, após uma existência bem completada, vier a hora solene, será com calma, sem pesar, que acolherá a morte; a morte, que os homens envolvem com sinistro aparato; a morte, espanto dos poderosos e dos sensuais, e que, para o pensador austero, não é mais que a libertação, a hora da transformação, a porta que se abre para o império luminoso dos Espíritos.
    Esse umbral das regiões supraterrestres, flanquea-lo-á com serenidade. Sua consciência, desapegada das sombras materiais, se vestirá ante ele como um juiz, representante de Deus, perguntando: “Que fez da vida?” E responderá : - “Tenho lutado, sofrido, amado, ensinado o bem, a verdade, a justiça; tenho dado aos meus irmãos o exemplo da retidão, da doçura; tenho socorrido aqueles que sofrem, consolado os que choram. E agora, que O Eterno me julga, eis-me aqui em Suas mãos!”


Léon Denis

O Porquê da Vida

Le Pourquoi de la Vie
1885