quinta-feira, 8 de novembro de 2012

PALINGENESIA





30. PALINGENESIA
(Eterno Retorno)

         Que vem a ser, neste sistema, o vosso conceito de Divin­dade? Compreendeis que Deus não pode ser algo mais e exterior à criação, ou distinto dela; que só o homem que está no relativo pode acrescentar a si, ou devenir além de si, não Deus, que é o ab­so­luto. Vossa concepção de um Deus que cria fora e além de si, acrescentando algo a si mesmo, é absurda concepção antropomó­rfica, é querer reduzir o absoluto ao relativo. Não pode haver cria­ção no absoluto. Só no relativo pode haver nascimento e transformação. O absoluto simplesmente “é”. Não queirais restringir a Divindade aos limites de vossa razão; não vos eleveis a juízes e à medida do todo; não projeteis no infinito as pequeninas imagens de vosso finito; não ponhais limites ao absoluto. Em sua essência, Deus está além do universo de vossa consciência, além dos limites de vosso concebível. É irreverência aviltar esse conceito para querer compreendê-Lo. Constituindo-vos em medida das coisas, colocais como sobrenatural e miraculoso qualquer fato novo para vossas sensações, tudo o que exorbite do que sabeis e conheceis. Mas, a natureza é expressão divina e não pode haver nada acima dela, nenhum acréscimo, nenhuma exceção, nenhuma correção à Lei.
         Sobrenatural e milagre são conceitos absurdos diante do absoluto, aceitáveis apenas em vosso relativo, aptos a exprimir vosso assombro diante do que é novo para vós e nada mais. Neles está contida a idéia de limite e de seu superamento; conceitos inaplicáveis à Divindade. Esta é superior a qualquer prodígio e o exclui como exceção, como retorno ao que já está feito, como reto­que ou arrependimento e, sobretudo, como vontade de desordem no equilíbrio da lei estabelecida. Limitai a vós mesmos esses con­ceitos e não vos julgueis centro do universo. Guardai para vós os conceitos de tempo, de espaço, de quantidade, de medida, de movi­mento, de perfectibilidade. Não deveis medir a Divindade como medis a vós mesmos; não tenteis defini-La, muito menos com aquilo que serve para definir-vos a vós mesmos, por multiplicação e expansão de vosso concebível. Se quereis somar ao infinito vos­sos superlativos, dizei ao infinito: isto ainda não é Deus. Seja Deus para vós uma direção, uma aspiração, uma tendência; seja para vós a meta. Se Deus está no infinito — inconcebível para vós em sua essência — nosso finito dele se avizinha por aproximações conceptuais progressivas. Vede como na Terra cada um adora a representação máxima da Divindade que pode conceber, e como, no tempo, essa aproximação se dilata. Do politeísmo ao mono­teísmo e ao monismo verificais o progresso de vossa concepção, que é proporcional à vossa força intelectiva e progride com ela. A luz aparece mais intensa à proporção que o olhar se torna mais pene­trante. O mistério subsiste, mas empurrado cada vez para mais longínquos horizontes. Por mais que este se dilate, haverá sempre um horizonte mais afastado para atingir. Ao verificar vossa relatividade que progride, eu não destruo o mistério, mas o enqua­dro no todo e dele dou a justificação racional, torno-o um mistério relativo, que só existe pela limitação de vossas capacidades inte­lectivas, que recua continuamente diante da luz, em função do ca­minho das verdades progressivas; um mistério fechado dentro dos limites que a evolução  ultrapassa dia a dia. Se a divindade é um princípio que exorbita vossos limites conceptuais, ela lá está a esperar-vos; para revelar-se, espera vossa maturação. Hoje, que finalmente vossa mente está amadurecendo, não é mais lícito, como no passado, “reduzir” aquele conceito a proporções antropomórficas. Hoje, eu já trouxe ao vosso relativo nova e maior aproximação; projetei em vossas mentes a maior imagem que as humanidades  futuras terão de Deus. Este é um canto mais alto de sua glória. Isto não é irreligiosidade, mas ao invés, pela maior exal­tação de Deus, é religiosidade mais profunda. Não procureis Deus apenas fora de vós, tornando-O concreto em imagens e expressões de matéria, mas O “sentis”, sobretudo , em sua forma de maior po­der dentro de vós, na idéia abstrata, estendendo os braços para o universo do espírito, que vos aguarda.
PIETRO UBALDI
Síntese e Solução dos Problemas da Ciência e do Espírito.

18ª EDIÇÃO

Tradução de

Carlos Torres Pastorino
e
Paulo Vieira da Silva


segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Ação de Deus no Mundo e na História



                              

 

 

                                     

Deus, foco de inteligência e de amor, é tão indispensável à vida interior quanto o Sol à vida física!

Deus é o sol das almas. É Dele que emana essa força, às vezes energia, pensamento, luz, que anima e vivifica todos os seres. Quando se pretende que a idéia de Deus é inútil, indiferente, tanto valeria dizer que o Sol é inútil, indiferente à Natureza e à vida.
Pela comunhão de pensamento, pela elevação da Alma a Deus, produz-se uma penetração contínua, uma fecundação moral do ser, uma expressão gradual das potências Nele encerradas, porque essas potências, pensamento e sentimento, não podem revelar-se e crescer senão por altas aspirações, pelos transportes do nosso coração. Fora disso, todas essas forças latentes dormitam em nosso íntimo, conservam-se inertes, adormecidas!
Falamos da prece. Expliquemo-nos ainda a respeito desta palavra. A prece é a forma, a expressão mais potente da comunhão universal. Ela não é o que tantas pessoas supõem: uma recitação frívola, exercício monótono e muitas vezes repetido. Não! Pela verdadeira prece, a prece improvisada, aquela que não comporta fórmulas, a Alma se transporta às regiões superiores; aí haure forças, luzes; aí encontra apoio que não podem conhecer nem compreender aqueles que desconhecem Deus. Orar é voltar-se para o Ser eterno, é expor-lhe nossos pensamentos e nossas ações, para submetê-los à sua Lei e fazer da sua vontade a regra de nossa vida; é achar, por esse meio, a paz do coração, a satisfação da consciência, em uma palavra, esse bem interior que é o maior, o mais imperecível de todos os bens!
Diremos, pois, que desconhecer, desprezar a crença em Deus e a comunhão do pensamento que a Ele se liga, a comunhão com a Alma do Universo, com esse foco de onde irradiam para sempre a inteligência e o amor, seria, ao mesmo tempo, desconhecer o que há de maior e desprezar as potências interiores que fazem a nossa verdadeira riqueza. Seria calcar aos pés nossa própria felicidade, tudo que pode fazer nossa elevação, nossa glória, nossa ventura.
O homem que desconhece Deus e não quer saber que forças, que recursos, que socorros Dele promanam, esse é comparável a um indigente que habita ao lado de palácios, cheios de tesouros, e se arrisca a morrer de miséria diante da porta que lhe está aberta e pela qual tudo o convida a entrar.
Ouvem-se freqüentemente certos profanos que dizem: “Não tenho necessidade de Deus!” Palavra triste, deplorável, palavra orgulhosa dos que, sem Deus, nada seriam, não teriam existido. Oh!, cegueira do espírito humano, cem vezes pior que a do corpo! Ouvistes algumas vezes a flor dizer: não tenho necessidade de sol? Pois bem, nós o sabemos, Deus não é somente a luz das Almas; é também o amor! E o amor é a força das forças. O amor triunfa de todas as potências brutais. Lembremo-nos de que se a idéia cristã venceu o mundo antigo, se venceu o poder romano, a força dos exércitos, o gládio dos Césares, foi pelo amor! Venceu por estas palavras: “Felizes os que têm a doçura, porque possuirão a Terra!”.
E, com efeito, não há homem, por mais duro, por mais cruel, que não se sinta desarmado contra vós, se estiver convencido de que quereis seu bem, sua felicidade e de que tal desejais de modo real e desinteressado.
O amor é todo-poderoso; é o calor que faz fundir os gelos do cepticismo, do ódio, da fúria, o calor que vivifica as almas embotadas, porém, prestes a desabrochar e a dilatar ao bafejo desse raio de amor.
Notai bem: são as forças sutis e invisíveis as rainhas do mundo, as senhoras da Natureza. Vede a eletricidade! Nada pesa e não parece coisa alguma; entretanto, a eletricidade é uma força maravilhosa; volatiliza os metais e decompõe todos os corpos. O mesmo se dá com o magnetismo, que pode paralisar o braço de um gigante. De igual modo o amor pode dominar a força e reduzi-la; pode transformar a alma humana, princípio da vida em cada um, sede das forças do pensamento. Eis a razão por que Deus, sendo o foco universal, é também o poder supremo. Se compreendêssemos a que alturas, a que grande e nobre tarefa nosso Espírito pode chegar pela compreensão profunda da obra divina, pela penetração do pensamento de Deus em cada ser, seríamos transportados de admiração.
Há homens convencidos de que, prosseguindo nossa ascensão espiritual, acabaremos por perder a existência, para nos aniquilar no Ser supremo. É isso grave erro: porque, ao contrário, se conforme a razão o indica e o confirmam todos os grandes Espíritos, quanto mais nos desenvolvemos em inteligência e em moral, mais a nossa personalidade se afirma. O ser pode estender-se e irradiar; pode crescer em percepções, em sensações, em sabedoria, em amor, sem por isso cessar de ser ele próprio. Não percebemos que os Espíritos elevados são personalidades poderosas? E nós próprios não sentimos que, quanto mais amamos, mais nos tornamos suscetíveis de amar; que quanto melhor compreendemos mais nos sentimos capazes de compreender?
Estar unido a Deus é sentir, é realizar o pensamento de Deus. Mas o poder de sentir essa possibilidade de ação do Espírito não o destrói. Só pode engrandecê-lo. E quando chega a certo grau de ascensão, a Alma se torna, por sua vez, uma das potências, uma das forças ativas do universo; ela se transforma num dos agentes de Deus na obra eterna, porque sua colaboração se estende sem cessar. Seu papel é transmitir as vontades divinas aos seres que estão abaixo dela, atrair a ela, em sua luz, em seu amor, tudo que se agita, luta e sofre nos mundos inferiores. Não se contenta mesmo com uma ação oculta. Muitas vezes encarna, toma um corpo e se torna um missionário, desses que passam quais meteoros na noite dos séculos.
Há outras teorias que consistem em crer que, quando em conseqüência de suas peregrinações, a Alma chega à perfeição absoluta, a Deus, depois de longa permanência no meio das beatitudes celestes, torna a descer ao abismo material, ao mundo da forma, ao mais baixo grau da escala dos seres, para recomeçar a lenta, dolorosa e penosa ascensão que acaba de conseguir.
Tal teoria não é mais admissível que a outra; para aceitá-la seria necessário fazer abstração da noção do Infinito. Ora, essa noção se impõe embora escape à nossa análise. Basta refletir um pouco para compreender que a Alma pode prosseguir a sua marcha ascendente e aproximar-se sem cessar do apogeu, sem jamais atingi-lo. Deus é o Infinito! É o Absoluto! E nunca seremos, em relação a Ele, apesar do nosso progresso, senão seres finitos, relativos, limitados.
O ser pode, pois, evoluir, crescer sem cessar, sem nunca realizar a perfeição absoluta. Isto parece difícil de compreender e, entretanto, que há de mais simples? Deixai-nos escolher um exemplo ao alcance de todos, um exemplo matemático. Tomai uma unidade – e a unidade é um pouco a imagem do ser – e ajuntai-lhe a maior fração que encontrardes. Aproximar-vos-eis do algarismo 2, mas nunca o atingireis. Nós, homens, encerrados na carne, temos grande dificuldade em fazer idéia do papel do Espírito, que contém em si todas as potências, todas as forças do Universo, todas as belezas e esplendores da vida celeste e os faz irradiar sobre o mundo. Mas o que podemos e devemos compreender é que esses Espíritos potentes, esses missionários, esses agentes de Deus, foram, tal qual ora somos, homens de carne, cheios de fraquezas e misérias; atingiram essas alturas por suas pesquisas e seus estudos, pela adaptação de todos os seus atos à lei divina. Ora, o que fizeram todos podemos fazer também. Todos têm os germens de um poder e de uma grandeza iguais ao seu poder e à sua grandeza. Todos têm o mesmo futuro grandioso, e só de nós outros mesmos dependem o desenvolvimento desses germens através de nossas inúmeras existências.
Graças aos estudos psíquicos, aos fenômenos telepáticos, estamos mais ou menos aptos para compreender, desde já, que nossas faculdades não se limitam a nossos sentidos. Nosso Espírito pode irradiar além do corpo, pode receber as influências dos mundos superiores, as impressões do pensamento divino. O apelo do pensamento humano é ouvido; a Alma, quebrando as fatalidades da carne, pode transportar-se a esse mundo espiritual, que é sua herança, seu domínio por vir. Eis por que é necessário que cada qual se torne seu próprio médium, aprenda a se comunicar com o mundo superior do Espírito.
Esse poder tem sido até aqui o privilégio de alguns iniciados. Hoje, é necessário que todos o adquiram e que todo homem chegue a apreender, a compreender as manifestações do pensamento superior. Ele pode chegar aí por uma vida pura e sem mácula e pelo exercício gradual de suas faculdades.
* * *
A ação de Deus se desvela no Universo, tanto no mundo físico quanto no mundo moral; não há um único ser que não seja objeto de sua solicitude. Nós a vimos manifestar-se nessa majestosa lei do progresso que preside à evolução dos seres e das coisas, levando-os a um estado sempre mais perfeito. Essa ação se mostra igualmente na história dos povos. Pode-se seguir, através dos tempos, essa marcha grandiosa, esse impulso da Humanidade para o bem, para o melhor. Sem dúvida, há nessas marchas seculares muitos desfalecimentos e recuos, muitas horas tristes e sombrias; não se deve, porém, esquecer que o homem é livre em suas ações. Seus males são quase sempre a conseqüência de erros, de seus estados de inferioridade.
Não é uma escolha providencial que designa os homens destinados a produzir as grandes inovações, os descobrimentos que contribuem para o desenvolvimento da obra civilizadora? Esses descobrimentos se encadeiam; aparecem, uns depois dos outros, de maneira metódica, regular, à medida que podem enxertar-se com êxito aos progressos anteriores.
O que demonstra, de modo brilhante, a intervenção de Deus na História é o aparecimento, no tempo próprio, nas horas solenes, desses grandes missionários, que vêm estender a mão aos homens e os repor na senda perdida, ensinando-lhes a lei moral, a fraternidade, o amor de seus semelhantes, dando-lhes o grande exemplo do sacrifício de si pela causa de todos.
Haverá algo mais imponente do que essa missão dos Enviados divinos? Eles vêm e marcham no meio dos povos. Em vão os sarcasmos e o ridículo chovem sobre eles. Em vão o desprezo e o sofrimento os atingem. Eles marcham sempre! Em vão se levantam ao redor deles os patíbulos, os cadafalsos.
As fogueiras se acendem. Mas eles seguem, com a fronte altiva, a alma serena. Qual é, pois, o segredo de sua força? Quem os impele assim para frente?
Acima das sombras da matéria e das vulgaridades da vida, mais alto que a Terra, mais alto que a Humanidade, eles vêem resplandecer esse foco eterno, um raio do qual os ilumina e lhes dá a coragem de afrontar todas as dores, todos os suplícios.
Contemplaram a Verdade sem véus e, daí em diante, não têm outro cuidado que difundir, pôr ao alcance das multidões, o conhecimento das grandes leis que regem as almas e os mundos!
Todos esses Espíritos potentes têm declarado que vêm em nome de Deus e para executar a sua vontade. Jesus o afirma várias vezes: “É meu Pai, diz ele, que me envia.” E Joana d'Arc não é menos precisa: “Venho da parte de Deus, para livrar a França dos ingleses.”
No meio da noite temerosa do décimo quinto século, nesse abismo de misérias e de dores em que soçobravam a vida e a honra de uma grande nação, que trazia Joana à França traída, subjugada, agonizante? Era algum socorro material, soldados, um exército? Não, o que ela trazia era a fé, a fé em si mesma, a fé no futuro da França, a fé em Deus!
“Eu venho da parte do Rei do Céu – dizia ela – e trago-vos os socorros do Céu.” E com essa fé a França se ergueu, escapou à destruição e à morte!
O mesmo aconteceu de 1914 a 1918. Só houve um remédio, quer para esse cepticismo aparatoso, quer para essa indiferença cega que caracterizava o espírito francês antes da guerra. Só houve um remédio a essa apatia do pensamento e da consciência nacionais que nos dissimulavam a extensão do perigo. Esse remédio foi a fé em nós mesmos, nos grandes destinos da Pátria, a fé nessa Potência Suprema que salvou de novo a França nos dias do Marne e de Verdun.
Mas os dias de perigo e de glória passaram; a união sagrada não sobreviveu ao drama sanguinolento. O pessimismo, o desencorajamento e a discórdia retomaram sua ação mórbida; a anarquia e a ruína batem às nossas portas.
O único meio de salvar a sociedade em perigo é elevar os pensamentos e os corações, todas as aspirações da alma humana para a Potência Infinita – que é Deus; é unir nossa vontade à sua e nos compenetrarmos da sua Lei: aí está o segredo de toda a força, de toda a elevação!
E ficaremos surpreendidos e maravilhados, avançando nesta senda esquecida, de reconhecer, de descobrir que Deus não é abstração metafísica, vago ideal perdido nas profundezas do sonho, ideal que não existe, conforme o dizem Vacherot e Renan, senão quando nele pensamos. Não; Deus é um ser vivo, sensível, consciente. Deus é uma realidade ativa. Deus é nosso pai, nosso guia, nosso condutor, nosso melhor amigo; por pouco que lhe dirijamos nossos apelos e que lhe abramos nosso coração, Ele nos esclarecerá com a sua luz, nos aquecerá no seu amor, expandirá sobre nós sua Alma imensa, sua Alma rica de todas as perfeições; por Ele e Nele somente nos sentiremos felizes e verdadeiramente irmãos; fora Dele só encontraremos obscuridade, incerteza, decepção, dor e miséria moral. Eis o socorro que Joana trazia à França, o socorro que o Espiritualismo moderno traz à Humanidade!
Pode-se dizer que o pensamento de Deus irradia sobre a História e sobre o mundo; Ele tem inspirado as gerações em sua marcha, tem sustentado, levantado milhões de almas desoladas. Tem sido a força, a esperança suprema, o último apoio dos aflitos, dos espoliados, dos sacrificados, de quase todos aqueles que, através dos tempos, têm sofrido a injustiça, a maldade dos homens, os golpes da adversidade!
Se evocardes a memória das gerações que se têm sucedido sobre a Terra, por toda parte, vereis os olhares dos homens voltados para essa luz, que nada poderá extinguir, nem diminuir!
É essa a razão pela qual vos dizemos: Meus irmãos, recolhei-vos no silêncio das vossas moradas; elevai freqüentemente a Deus os transportes de vossos pensamentos e dos vossos corações, expondo-lhe vossas necessidades, vossas fraquezas, vossas misérias, e, nas horas difíceis, nos momentos solenes de vossa vida, dirigi-lhe o apelo supremo. Então, no mais íntimo do vosso ser, ouvireis como que uma voz vos responder, consolar, socorrer.
Essa voz vos penetrará de uma emoção profunda; fará talvez brotar vossas lágrimas, mas levantar-vos-eis fortalecidos, reconfortados.
Aprendei a orar do mais profundo de vossa alma, e não mais da ponta dos lábios; aprendei a entrar em comunhão com vosso Pai; a receber seus ensinamentos misteriosos, reservados, não aos sábios e poderosos, mas às almas puras, aos corações sinceros.
Quando quiserdes achar refúgio contra as tristezas e as decepções da Terra, lembrai-vos de que há somente um meio: elevar o pensamento a essas puras regiões da luz divina, onde não penetram influências grosseiras do nosso mundo. Os rumores das paixões, o conflito dos interesses não vão até lá. Chegando a essas regiões, o Espírito se desprende de preocupações inferiores, de todas as coisas mesquinhas de nossas existências; paira acima da tempestade humana, mais alto que os ruídos discordantes da luta pela vida, pelas riquezas e honras vãs; mais alto que todas essas coisas efêmeras e mutáveis que nos ligam aos mundos materiais. Lá em cima, o Espírito se esclarece, inebria-se dos esplendores da verdade e da luz. Ele vê e compreende as leis do seu destino.
Diante das largas perspectivas da imortalidade, perante o espetáculo dos progressos e das ascensões que nos esperam na escala dos mundos, que se tornam para nós as misérias da vida atual, as vicissitudes do tempo presente?
Aquele que tem em seu pensamento e em seu coração essa fé ardente, essa confiança absoluta no futuro, essa certeza que o eleva, esse está encouraçado contra a dor. Ficará invulnerável no meio das provas. Está aí o segredo de todas as forças, de todo o valor, o segredo dos inovadores, dos mártires, de todos aqueles que, através dos séculos, oferecem sua vida por uma grande causa; de todos aqueles que, no meio das torturas, sob a mão do algoz, enquanto seus ossos e sua carne, esmagados pela roda ou pelo cavalete, não eram mais do que lama sanguinolenta, achavam ainda a força suficiente para dominar seus sofrimentos e afirmar a Divina Justiça; daqueles que, sobre o cadafalso, e assim sobre a lenha das fogueiras, viviam, já por antecipação, da vida apreciável e gloriosa do Espírito.

Léon Denis livrro: O Grande Enigma

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

A RESSURREIÇÃO DE LÁZARO






“Ora, estava doente um homem chamado Lázaro, de Betânia, da aldeia de Maria e sua irmã Marta. Maria, cujo irmão Lázaro se achava doente, era a que ungira o Senhor com perfume e lhe enxugara os pés com seus cabelos. Mandaram, pois, as irmãs de Lázaro dizer a Jesus: Senhor, aquele que amas, está doente. Ao saber disto, disse Jesus: Esta doença não é para morte, mas para a glória de Deus, a fim de que o Filho de Deus seja por ela glorificado. Ora, Jesus estimava a Marta, e a sua irmã e a Lázaro. Tendo sabido, pois, que este estava doente, demorou-se ainda dois dias no lugar onde se achava. Então passado isto, disse aos discípulos: Voltemos para a Judéia. Perguntaram estes: Mestre, agora mesmo os judeus procuravam apedrejar-te, e voltas para lá? Respondeu Jesus: Não são doze as horas do dia? Se alguém andar de dia não tropeça, porque vê a luz deste mundo; mas se alguém andar de noite, tropeça, porque, a luz não está nele. Assim falou e depois disse: Nosso amigo Lázaro dorme, mas vou despertá-lo do sono. Disseram-lhe então os discípulos: Senhor, se dorme, ficará bom. Ora, Jesus tinha falado da morte de Lázaro; mas eles supunham que falas-se do repouso do sono. Disse-lhes, pois, Jesus abertamente: Lázaro morreu; e por vossa causa folgo de não me achar lá, para que creais; mas vamos ter com ele. Então Tomé, chamado Dídimo, disse aos seus condiscípulos: Vamos também nós para morrermos com ele.
Chegando Jesus, achou que estava Lázaro no túmulo havia já quatro dias. Ora, Betânia distava de Jerusalém cerca de quinze estádios. Muitos dos judeus tinham vindo ter com Marta e Maria, para as consolar pela morte do seu irmão. Marta, quando soube que vinha Jesus, foi encontrá-lo; Maria, porém, ficou sentada em casa. Disse, então, Marta a Jesus: Senhor, se tivesses estado aqui, não teria morrido o meu irmão. E mesmo agora sei que tudo o que pedires a Deus, Deus to dará. Respondeu-lhe Jesus: teu irmão há de ressuscitar. Sei, replicou Marta, que ele há de ressuscitar na ressurreição, no último dia. Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; o que crê em mim, ainda que esteja morto viverá; e todo o que vive e crê em mim, nunca, jamais morrerá; crês nisto? Sim, Senhor, respondeu ela; eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo. E tendo dito isto, foi ela chamar a Maria, sua irmã, e lhe disse em particular. Aí está o Mestre e te chama. E ela ouvindo isto, levantou-se depressa e foi ter com ele (pois Jesus não havia ainda entrado na aldeia, mas permanecia no lugar onde Marta o encontrara). Os judeus, que estavam com Maria, em casa e a consolavam, vendo-a levantar-se depressa e sair, seguiram-na pensando que ela ia ao túmulo para ali chorar. Quando Maria chegou no lugar onde estava Jesus, ao vê-lo, lançou-se-lhe aos pés, dizendo: Senhor, se tivesses estado aqui, não teria morrido meu irmão. Jesus vendo-a chorar e chorar também os judeus que a acompanhavam, perturbou-se e perguntou: Onde o puseste? Eles lhe responderam: Senhor, vem e vê. Jesus chorou. Os judeus, então, diziam: Vede como ele o amava! Mas alguns deles diziam: Não podia este homem, que abriu os olhos ao cego, fazer que este não morresse? Jesus, gemendo outra vez em si mesmo, foi ao túmulo; este era uma gruta, a cuja entrada estava posta uma pedra. Jesus disse: Tirai a pedra. Disse-lhe Marta, irmã do morto: Senhor, ele já cheira mal, porque está morto há quatro dias. Respondeu-lhe Jesus: Não te disse eu que, se creres, verás a glória de Deus? Tiraram então a pedra. E Jesus, levantando os olhos, disse: Pai, graças te dou que me ouviste. Eu sabia que sempre me ouves, mas assim falei por causa desta multidão que me cerca, para que creiam que tu me enviaste. Tendo assim falado, clamou em alta voz: Lázaro, sai para fora! Saiu aquele que estivera morto, ligados os pés e as mãos com faixas, e envolto o seu rosto num lenço. Disse .Jesus: desatai-o e deixai-o ir.
“Muitos dos judeus que vieram ter com Maria e viram o que fizera Jesus, creram nele. Alguns deles, porém, foram ter com os fariseus, e lhes contaram o que Jesus tinha feito.”
(João, XI, 1, 46.)

Esta narrativa, de uma simplicidade verdadeiramente singular, retrata uma das belíssimas cenas do Cristianismo, seja em seu aspecto religioso e moral, seja em sua modalidade científica ou filosófica.
Por ela se descobre logo a morte sob os seus dois aspectos: físico e psíquico.
Aquelas afirmações características de Jesus, ora dizendo: Lázaro dorme (não morreu) mas eu vou despertá-lo, ao fado desta outra: Lázaro morreu, despertam imediatamente a idéia de duas mortes: a morte corporal e a morte espiritual.
Com efeito, lendo-se, com toda a atenção o trecho evangélico, e pondo lado a lado o modo de ver de Jesus e o modo de ver do evangelista, compreendemos imediatamente que o Caso de Lázaro não passa de um caso psíquico, fenômeno cataléptico, que tanto pode durar 2 horas, como 4 ou 5 dias. Destes casos a Medicina não conhece perfeitamente as causas. A catalepsia apresenta todas as aparências da morte: rigidez, insensibilidade, perda de inteligência, aspecto cadavérico, etc.
Essa “moléstia” era muito comum na Judéia, onde os enterramentos eram imediatos.
Vemos, por exemplo, no capítulo V, versículo 5 e seguintes de Atos dos Apóstolos, que tendo Ananias e sua mulher Safira retido parte da importância de uma propriedade que venderam e deveria ser entregue aos Apóstolos, só pelo fato de Pedro repreendê-los severamente, caíram ambos mortos e em menos de 3 horas foram enterrados.
Nestes dois exemplos vemos não se tratar de morte real, mas de simples casos de sincope ou letargia.
Assim foi, certamente, o que aconteceu a Lázaro.
Vitimado por uma letargia, imediatamente fizeram-no enterrar, permanecendo no túmulo durante a crise cataléptica.
Jesus, conhecendo a natureza de seu amigo Lázaro e as crises a que ele estava sujeito; dotado ainda, o Mestre, como era, dessa vista dupla, ou clarividência, que transpõe distâncias e não conhece barreiras, verificou que Lázaro não fora atacado de uma enfermidade física, mas que a sua moléstia era toda de ordem psíquica, como se observa nos casos de sonambulismo, catalepsia; letargia. Foi isto que o fez demorar 4 dias para chegar a Betânia. Ele tinha certeza de que não houvera ruptura dos laços fluídicos que ligam o Espírito ao corpo.
E tanto é assim, que o despertou com voz alta e imperiosa: Lázaro, sai para fora, operando a ressurreição do seu amigo. Como verão depois os leitores, empregam o termo ressurreição na sua significação restrita.
Esclarecida, pois, a natureza da morte de Lázaro: morte psíquica, procuremos conhecer o fator indispensável dessa morte e suas causas.
A morte psíquica (não encontramos outra expressão mais adequada), é ocasionada sempre por uma modificação molecular que tira temporariamente as transmissões de relação que existe entre o corpo e o Espírito. Uma grande superexcitação, ou preocupação do Espírito, interrompe essas relações, mais ou menos como ocorre no momento do sono. Neste caso o Espírito não pensa mais no corpo e produz-se a insensibilidade. Vemos também certos casos nos quais, mesmo em vigília, ignoramos o que se passa em nosso corpo. No ardor do combate o militar não sabe se está ferido.
A morte psíquica é, pois, uma exteriorização do Espírito, exteriorização essa de graus variados, que vai desde a simples sugestão ao desdobramento da personalidade. Nesses casos, o indivíduo é sempre um indivíduo psíquico, cuja faculdade deve ser bem empregada e desenvolvida para não haver prejuízo coletivo.
Lázaro, membro principal daquela família de Betânia, e que tinha certa afinidade com Jesus, não podia deixar de ser um indivíduo-psíquico, mas que não cultivava suas faculdades e vivia alheio às coisas espirituais. O Evangelho não nos fala nesse homem senão quando narra a sua ressurreição, o que quer dizer que ele era como quem não existisse, era um morto que ali vivia tratando de outros lazeres, estranhos aos que enobrecem a alma e exaltam o coração. A sua materialidade se mostrou tão acentuada que chegou a morrer, embora não houvesse separação entre alma e corpo. E assim permaneceu 4 dias, e mais permaneceria se Jesus não viesse ressuscitá-lo, pois a sua “morte aparente” tomou feições tão nítidas de “morte real”, que chegaram a levá-lo para o túmulo, o que fez sua irmã Marta pensar que “já cheirava mal”.
A morte psíquica pode-se, pois, traduzir como desaparecimento do Espírito, assim como a morte física é o desaparecimento do corpo.
Com a ressurreição operou-se o “milagre” do aparecimento, do ressurgimento do Espírito no corpo e, conseqüentemente a ressurreição (reaparição do corpo), depois de removida a pedra e dada ordem imperiosa por Jesus para que Lázaro saísse do túmulo.
Encarando a questão pelo lado científico, observamos uma bela cura de catalepsia operada com o auxílio do magnetismo, de que Jesus era o maior de todos os representantes. Aliás, em todas as suas curas não adotava outro processo. Quem passar uma vista de olhos sobre as curas operadas pelo Grande Mestre, verá que nenhum outro processo foi por ele empregado, senão a imposição de mãos e a Palavra; ao paralítico ele disse: “Toma o teu leito e caminha”; ao cego disse: “Vê”; ao surdo: “Ouve”, e assim por diante.
Está a Ciência de hoje muito mais adiantada que a de 2.000 anos atrás, principalmente a Medicina? Estamos a apostar que mesmo com o auxílio dos soros e das transfusões, os grandes esculápios do nosso país e do estrangeiro não são capazes de ressuscitar os Lázaros que caminham todos os dias para os túmulos!
A propósito deste esclarecimento sobre a ressurreição de Lázaro, parece oportuno passar para estas páginas o modo de ver dos Espíritos, exarado em A Gênese Segundo o Espiritismo sobre as Ressurreições.
Tratando das “ressurreições” da filha de Jairo e do filho da Viúva de Naim, narrados nos Evangelhos eles dizem: “O fato da volta à vida corporal, de um indivíduo, realmente morto, seria contrário às leis de Natureza. Ora, não é necessário recorrer a essa derrogação para explicar as ressurreições operadas pelo Cristo
“Em certos estados patológicos, quando o Espírito não está mais no corpo, e o perispírito apenas a ele adere por alguns pontos, o corpo têm todas as aparências da morte e afirma-se uma verdade absoluta, dizendo que a vida está por um fio. Este estado pode durar mais ou menos tempo; certas partes do corpo podem mesmo entrar em decomposição sem que a vida esteja definitivamente extinta. Enquanto se não romper o último fio, o Espírito pode, quer por uma ação enérgica da sua própria vontade, quer por um influxo fluídico estranho, igualmente poderoso, ser de novo chamado ao corpo. Assim se explicam certos prolongamentos da vida contra toda a probabilidade, e certas supostas ressurreições. É a planta que brota de novo muitas vezes por uma só das suas radículas; mas, desde que as últimas moléculas do corpo carnal, ou este último, fique em estado de corrupção irreparável, a volta à vida é impossível”.
Fica assim bem entendida a ressurreição de Lázaro sob o ponto de vista científico.
Vitimado ou não por uma catalepsia, ou por outra moléstia qualquer, o fato é que a morte era aparente e não real; não se havia rompido o último fio, o perispírito ainda se achava ligado ao corpo por alguns pontos. Jesus, com seu grande poder, supriu as deficiências do paciente e fê-lo voltar à vida corpórea, reconstituindo-lhe o organismo afetado.
Encaremos agora o caso pelo lado religioso.
Sendo o objeto principal de Jesus dignificar a sua Doutrina, com fatos emocionantes que influíssem no cérebro e no coração de seus discípulos, não quis excluir da sua tarefa na Terra, as curas, por saber que são elas que mais influem na conversão de infiéis. E durante toda a sua peregrinação no mundo, onde quer que encontrasse um enfermo por curar, um paralítico deitado, um hidrópico em ofegante dispnéia, um cego, um surdo, um mudo, um leproso, com um aceno de suas divinas mãos, com uma palavra ungida de misericórdia, com um olhar envolto de amor e de bondade, destruía aqueles males, restaurando a saúde ao paciente.
As curas de Jesus tomam um grande capítulo dos Evangelhos. Poder-se-ia com elas escrever um livro, cujos ditames concorreriam, sem dúvida, para fazer sarar muitos enfermos que, sem fé e sem consciência dos salutares efeitos das forças superiores da Natureza, quando bem aplicadas, fariam desaparecer muitos males que afligem infelizes enfermos, que debalde imploram a saúde que a Ciência Acadêmica não dá, porque está absolutamente separada do Espírito do Cristianismo.
Não se diga, porém que essas curas se fizeram exclusivamente sob a direção de Jesus, ou que foi Jesus o único que a fez, em virtude da sua divindade miraculosa.
Em todos os tempos e em todos os países as curas espíritas têm sido objeto de meditação e admiração. E o próprio Jesus, quando organizou o seu Colégio Apostólico e enviou os Apóstolos, dois a dois, a pregarem o Evangelho, uma das principais coisas que lhes recomendou foi: “Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, limpai os leprosos, expeli os demônios; de graça recebestes, de graça dai”.
(Mateus, X, 1-9.)
Não vem ao caso mais citações, que não cabem nesta breve dissertação.
Conclui-se que, seja sob o ponto de vista científico, seja sob o ponto de vista religioso, a Ressurreição de Lázaro é uma das grandes lições que o Moço Nazareno nos legou; é indispensável, portanto, que a estudemos atenciosamente.
Mais duas palavras e terminaremos.
Ressurreição é termo que pode ser empregado sob o ponto de vista material e espiritual.
Quando dizemos que tal indivíduo “ressuscitou”, afirmamos que ele reapareceu, porque “ressuscitar” quer dizer “reaparecer”.
Esse reaparecimento se pode dar em corpo carnal ou em Espírito. Por exemplo: Lázaro “ressuscitou”, reapareceu com seu corpo carnal, que todos já julgavam morto.
Mas os “mortos” também ressuscitam em corpo espiritual. Foi assim que Moisés e Elias ressuscitaram no Tabor, assim Samuel ressuscitou no Endor, assim Jesus Cristo ressuscitou em Jerusalém e circunvizinhanças. Destes” morreram os corpos carnais, mas eles ressuscitaram em seus corpos espirituais.
A Imortalidade não é apanágio do corpo material, mas sim do corpo fluídico, celeste, espiritual.
A Ressurreição de Lázaro foi uma manifestação física do poder de Jesus; a Ressurreição de Jesus foi uma graça psíquica da Sabedoria Divina.


Cairbar Schutel

Parábolas e Ensinos de Jesus

1ª Edição - 1928