quarta-feira, 15 de maio de 2013

A DOUTRINA DA IMORTALIDADE




                                    




                           A moderna psicologia


Foi justamente quando o espírito de negação e de materialidade triunfava no mundo, e quando esses dois formidáveis exércitos, sacerdotalismo e cientificismo, se digladiavam e destruíam, com prejuízo para a coletividade, que as Potências dos Céus se abalaram e o Espírito de Verdade desceu a Terra, para trazer-nos a nova luz que deveria iluminar os horizontes da nossa Imortalidade!
Então, uma nova Ciência ergueu-se para enfrentar a Ciência que nega a Religião; e uma nova Religião bateu às portas dos templos para pedir, aos seus sacerdotes, contas das suas negações às provas positivas que a Ciência lhes tem oferecido.
O velho mundo foi abalado em suas bases e as partes litigantes, avelhantadas, sem recursos para prosseguirem na sua luta, voltaram suas armas contra quem lhes vinha propor paz honrosa.
O Espiritismo foi repudiado, caluniado, injuriado pelos obscurantistas anchos do saber e do poder humanos; mas a Verdade devia triunfar, pois soara no grande relógio universal a hora das reivindicações sociais! A cegueira de uns e de outros não poderia privar o desenvolvimento da vidência latente de tantos: a VOZ DOS MORTOS fez-se ouvir em todos os cantos da Terra e em pouco mais de meio século o Espiritismo restaurou o Gênio do Cristianismo, ao menos quanto aos memoráveis testemunhos da sobrevivência humana.
A par de tantas descobertas e inovações, que vêm transformando nosso mundo num paraíso, o Experimentalismo Espírita faz reviver, em todos, a certeza da Imortalidade, cumprindo assim a previsão do Apóstolo dos Gentios, segundo o qual "a morte será tragada na vitória dos arautos do Ideal Cristão".
E já não são mais considerações filosóficas, nem floreios de retórica que vêm exaltar a Doutrina da Vida, mas, sim, a eloquência dos fatos persistentes que desafiam todas as minuciosas investigações e se submetem aos mais escrupulosos exames!
Precedendo a era nova, que o padrão espírita marcou na senda que a Humanidade tem de trilhar, o Magnetismo concorreu com fortes contingentes para abalar as barreiras do Materialismo, tão bem amparadas por Ernest Haeckel nos seus Enigmas do Universo.
O magnetismo, com os seus fenômenos de sonambulismo, desdobramento da personalidade e outros de não menor importância, tem deixado patente aos olhos de todos os que querem ver, a existência do Espírito, quer se trate do Espírito humano, quer se trate do Espírito do animal, esse mesmo Espírito independente do corpo carnal.
A visão a distancia e no interior dos corpos opacos, os fenômenos de bilocação, de exteriorização da sensibilidade, sobrepujam todos os templos de barro e academias de pedras, construídos pela imperfeita mão do homem.
O Animismo, como o denominou Aksakof, por si só explica e demonstra, com lógica irrefutável e fatos irrefragáveis, a existência da alma, independente das forças néuricas e cerebrais, e sua ação volitiva apesar da resistência que a matéria lhe opõe.
 Não há que tergiversar: existimos, e nossa individualidade mantém-se indestrutível, sem que para isso concorram com um ceitil o fósforo, as circunvoluções cerebrais, ou a cal da carcaça que abriga nosso cérebro. A memória ai está para testificar esta verdade!
Hoje podemos dizer: Ego sun, fui et ero! - Existo, existi e existirei!
CAIRBAR SCHUTEL
GÊNESE DA ALMA


quarta-feira, 8 de maio de 2013

Os Serviços do Centro



No desempenho da sua função, o Centro Espírita é, sobretudo, um centro de serviços ao próximo, no plano propriamente humano e no plano espiritual. O ensino evangélico puro, as preces e os passes, o trabalho de doutrinação representa um esforço permanente de esclarecimento e orientação de espíritos sofredores e de suas vítimas humana que geralmente são comparsas necessitados da mesma assistência. Muitas criaturas perguntam se os espíritas não são pretensiosos e orgulhosos, ao se julgarem capazes de esclarecer espíritos desencarnados. Acham que esse é um serviço dos Espíritos Superiores e não dos homens. Chegam a fazer cálculos para demonstrar aos espíritas que esse trabalho é em vão, pois o número de espíritos que podem assistir em suas sessões é diminuto. Esquecem-se de que toda atividade esclarecedora, em qualquer campo, vale mais pela sua possibilidade de propagação. A dinâmica da comunicação é o principal fator da eficiência nesses casos. São muitos os exemplos históricos nesse sentido, mas nenhum é mais claro que o de Jesus, servindo-se de um pequeno grupo de pessoas para modificar com seus ensinos, mesmo deturpados pela ignorância, a face do mundo.
Nas sessões espíritas não se pretende abranger todos os espíritos necessitados – o que seria impossível – mas cuidar daqueles que estão mais ligados a nós. A doutrinação de um espírito perturbado é quase sempre o pagamento de uma dívida nossa para aquele espírito. Se o prejudicamos ontem, hoje o socorremos. E ele, socorrido, torna-se um novo assistente da grande batalha pelo esclarecimento geral. Cada espírito que conquistamos para o bem representa um novo impulso na luta, o acréscimo de mais um companheiro, um aumento do bem. Devemos sempre lembrar que o bem é contagiante. Se libertarmos uma vítima da obsessão na Terra, libertamos outra no mundo espiritual que nos cerca. Essa multiplicação se processa num crescendo, atingindo progressivamente a centenas de pessoas e espíritos.
Alegam alguns que os espíritos perturbados são assistidos no próprio plano espiritual. Mas Jesus, por acaso, deixou de assistir aos espíritos necessitados, aqui mesmo, na Terra? Pelo contrário, os assistiu e mandou ainda os seus discípulos fazerem o mesmo. A experiência espírita confirma o acerto do atendimento terreno, demonstrando cientificamente que os espíritos desencarnados, mas ainda muito apegados às condições da vida material, precisam de assistência mediúnica para se livrar desse apego. Nas sessões, como observou o sábio francês Gustavo Geley, a emanação de ectoplasma forma um ambiente favorável às relações dos espíritos com os homens. Nesse ambiente mediúnico os espíritos apegados à matéria sentem a impressão de maior segurança, como se estivessem novamente encarnados. Muitas vezes, nas sessões, Espíritos orientadores serve-se de um médium para doutrinar mais facilmente essas entidades confusas. Isso confirma a dificuldade, acentuada por Kardec, que Espíritos mais evoluídos encontram para esclarecer os inferiores no plano espiritual. As sessões espíritas de doutrinação e desobsessão provaram sua eficácia desde Kardec até os nossos dias, enquanto as opiniões contrárias não se firmam senão em opiniões pessoais, palpites deduzidos de falsos raciocínios, por falta de real conhecimento desse grave problema.
Os que hoje procuram diminuir o valor e a importância dessas sessões nos Centros não passam de palpiteiros. Os Centros Espíritas bem organizados e bem orientados não se deixam levar por esses palpites, pois possuem suficiente experiência nesse campo altamente melindroso de suas atividades doutrinárias. Da mesma maneira, os que pretendem que as sessões dos Centros sejam dedicadas apenas às manifestações de Espíritos Superiores, revelam egoísmo e falta de compreensão doutrinária. A parte mais importante e necessária das atividades mediúnicas, mormente em nossos dias, é precisamente a da prática doutrinária da desobsessão. Trabalhar nesse setor é dever constante dos médiuns esclarecidos e dedicados ao bem do próximo. O estado de confusão a que chegou a Psicoterapêutica em nossos dias, e particularmente a Psiquiatria, exige redobrado esforço dos Centros no trabalho de doutrinação e de desobsessão. Milhões de vítimas, no mundo inteiro, clamam pelo socorro de métodos mais eficientes de cura psicoterapêutica, que só o Espiritismo pode oferecer, graças às suas experiências de mais de dois séculos nesse campo. O Centro Espírita guarda esse acervo maravilhoso em sua tradição e não pode recuar diante dos sofismas da atualidade trágica e pretensiosa.
As comunicações dos Espíritos Superiores são dadas no momento preciso, mesmo em meio do aparente tumulto das sessões de desobsessão. É muito agradável recebermos comunicações elevadas de Espíritos Superiores, mas só as merecemos depois de cuidarmos com atenção e abnegação dos Espíritos Sofredores. Quando recusamos essas oportunidades redentoras os Superiores se afastam e o campo fica aberto aos mistificadores, como o sabem, muitas vezes por duras experiências próprias, os que procuram acomodar-se na bênção sem merecimento.
Os serviços assistenciais à pobreza, prestados pelos Centros Espíritas, constituem a contribuição espírita para o desenvolvimento de nova mentalidade social em nosso mundo egoísta. Não basta semear ideias fraternistas entre os homens; é necessário concretizá-las em atos pessoais e sinceros. O Centro Espírita funciona como um transformador de ideias fraternas em correntes de energias ativas nesses planos. Em suas turbinas invisíveis as ideias se transformam em atos de amor e de dedicação ao próximo. Há os que combate à esmola, a doação gratuita de ajuda material aos necessitados. Querem a criação de organismos sociais capazes de modificar o panorama da miséria com recursos de ensino e encaminhamento dos infelizes a situações melhores. Isso é o ideal, e muitos Centros e outras formas de instituições espíritas conseguiram fazê-lo. Mas quando escasseiam recursos e meio de se fazer isso, é justo que deixemos os pobres à mingua na sua impotência? Há misérias tão cruciantes que têm de ser atendidas agora, neste momento. Negar auxílio, nesses casos, a pretexto de que estamos sonhando com medidas melhores é falta de caridade, comodismo disfarçado em idealismo superior. O Centro Espírita é instrumento de ação imediata e age de acordo com as necessidades urgentes. Sem o atendimento a essas necessidades, as vítimas da injustiça social não poderão esperar as brilhantes realizações futuras.
Como ensinou Kardec, devemos esperar que as utopias se tornem realidades, para depois as aceitarmos. As pessoas que censuram esse esforço de ajuda aos necessitados, defendendo ideais de reforma social, alienam-se da cruciante realidade em que vegetam os que não dispõem de meios para o próprio sustento. Geralmente esses ideólogos de um mundo melhor que deve surgir por milagre ou por abalos sociais, acusam os espíritas de alienados, comodistas e divorciados da realidade, quando, entretanto, são eles que se alienam. O Centro Espírita não pode se entregar, pois aos seus princípios. Seu objetivo é o bem de todos e não o desta ou daquela camada da população. A evolução social depende da evolução dos homens, que constituem e formam os organismos sociais. É pelo exemplo de fraternidade, e não pela violência, que podemos melhorar o mundo. A Revolução Cristã não se processou a golpes de violência, mas ao custo de sacrifício e abnegação, de profundo respeito pela criatura humana. Não importa se essa criatura é um potentado ou um mendigo. A Revolução Espírita, que é filha e herdeira da Revolução Cristã, não se faz ao poder precário e ilusório das armas destruidoras, mas ao ritmo das modificações nas consciências dos homens, na busca de paz e compreensão para que as atrocidades desapareçam da Terra. Não podemos apagar fogo com gasolina, nem consertar o mundo com a substituição de castas no poder.
Os serviços de assistência ao próximo só podem retardar o avanço da violência, ao mesmo tempo em que aceleram o desenvolvimento moral e espiritual da Humanidade. É desse desenvolvimento, e exclusivamente dele, que poderá surgir na Terra uma civilização superior. O Centro Espírita não pode trocar os seus serviços de amor e fraternidade pelo acirramento das lutas entre grupos e classes. Ele apela aos valores da inteligência, que através da razão equilibrada e da compreensão profunda das necessidades humanas, conduzem os homens à solução e não apenas as tentativas de maiores conflitos.
Um espírita não pode pensar apenas em termos da realidade imediata. A concepção dialética do Espiritismo não se funda no exame das contradições superficiais do mecanismo social. Aprofunda-se no exame do dinamismo complexo das ações e reações dos indivíduos e dos grupos sociais que estruturam a sociedade. Reduzir toda essa complexidade às manifestações efêmeras dos estágios evolutivos de uma sociedade é negar ao homem a possibilidade de lutar para compreender os problemas com que se defronta no processo existencial. Viver e existir são duas possibilidades do ser que se projeta na encarnação. Nos planos inferiores dos reinos mineral e vegetal a vida é movimento e sensação, mas nos estágios intermediários da animalidade se converte em conquista e domínio, elevando-se no plano hominal à consciência de si mesma da busca da transcendência. Nesse plano, o ser humano assume a responsabilidade da busca e só existe realmente superando as fases inconscientes do seu desenvolvimento, na medida exata em que sabe o que quer e porque o quer.
Esse “o que” e esse “porque” têm então de superar-se a si mesmo na conquista do “como”, ou seja: de que maneira poderá continuar a elevar-se. Assim como a conquista material do plano animal se transforma na conquista do conhecimento de si mesmo e do seu destino transcendente, todas as demais atividades do homem levam à consciência, o que dá ao ser a sua unidade. Consciente dessa unidade interna, o homem supera então a multiplicidade da sua própria estrutura e do mundo. Revela-se nele a centelha divina da sua origem espiritual. Ele compreende que é espírito e que esse espírito não pode desfazer-se com a morte, pois a sua essência é indestrutível e eterna. Esse é o momento espírita da redenção, em que o espírita capta a sua imortalidade em sua própria consciência e muda a maneira de ser diante do mundo ilusório e transitório.
Desse momento em diante o espírito se integra no Centro Espírita, liga-se a ele, não como um serviçal, mas como o próprio serviço. A multiplicidade dos serviços do Centro adquire em sua consciência a mesma unidade conquistada por esta. Ao mesmo tempo, a visão da unidade existencial, em que todos os serviços se fundem no serviço único da Humanidade, desperta nele o sentimento e a compreensão do seu dever único – servir a Deus no serviço ao próximo.
Tudo o que ele fizer dali por diante, será um fazer universal, não ligado a ele ou ao Centro, não confinado na sua pessoa e no seu grupo, nem mesmo restrito ao meio espírita, mas naturalmente extensivo a toda a Humanidade. Os pioneiros do Espiritismo, a partir de Kardec, todas as grandes figuras que souberam dar-se ao Espiritismo ao invés de apossar-se dele, fizeram essa caminhada redentora, passaram por gigantesca odisseia espiritual, temperando-se nas encarnações sucessivas para reimplantar na Terra a semeadura do Cristo, na ressurreição do seu Evangelho, da sua Boa Nova em “espírito e verdade”.
Como se vê, o Centro Espírita é realmente um centro de convergência de toda a dinâmica doutrinária. Nele iniciam-se os neófitos, revelam-se os médiuns, comunicam-se o Espírito, educam-se crianças e adultos, libertam-se os obsedados, estuda-se a Doutrina em seus aspectos teóricos e práticos, promove-se a assistência social a todos os necessitados, sem imposições e discriminações, cultiva-se a fraternidade pura que abre os portais do Futuro. A coordenação das atividades de um Centro Espírita bem orientado é praticamente automática, resultando do clima fraterno em que todos se sentem como em família, ajudando-se mutuamente. É nessa comunhão de esforços que os espíritas podem antecipar as realizações mais fecundas. Mas se no Centro se infiltra o espírito mesquinho das intrigas, das pretensões descabidas, das aversões inferiores, os dirigentes necessitam de muita paciência e tolerância para quebrar as arestas e restabelecer a atmosfera espiritual. Nunca, porém, deverão renunciar aos seus deveres, o que seria uma deserção, a menos que o façam reconhecendo humildemente os seus erros e continuando no Centro para servir melhor, em cargos inferiores ou mesmo sem cargos. Nada mais triste do que um Centro Espírita em que alguns se julgam mestres dos outros, quando na verdade ninguém sabe nada e todos deviam colocar-se na posição exata de aprendizes. Os serviços mais urgentes de cada Centro são os de instrução doutrinária de velhos e novos adeptos, tanto uns como outros carentes de conhecimento doutrinário. Bem executado esse serviço, todos os demais serão feitos com mais facilidade.
www.autoresespiritasclassicos.com


Herculano Pires

O Centro Espírita
Dedicatória

Para

Dadício de Oliveira Baulet

Ciro Milton de Abreu

Que fundaram em Cerqueira César, na Sorocabana, o Centro Espírita Humberto de Campos,
Logo após a morte do grande escritor, pouco depois ressuscitado na psicografia de
Francisco Cândido Xavier.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Da Infância.



                            



379. É tão desenvolvido, quanto o de um adulto, o Espírito que anima o corpo de uma criança?
"Pode até ser mais, se mais progrediu. Apenas a imperfeição dos órgãos infantis o impede de se manifestar. Obra de conformidade com o instrumento de que dispõe."

380. Abstraindo do obstáculo que a imperfeição dos órgãos opõe à sua livre manifestação, o Espírito, numa criancinha, pensa como criança ou como adulto?
"Desde que se trate de uma criança, é claro que, não estando ainda nela desenvolvidos, não podem os órgãos da inteligência dar toda a intuição própria de um adulto ao Espírito que a anima. Este, pois, tem, efetivamente, limitada a inteligência, enquanto a idade lhe não amadurece a razão. A perturbação que o ato da encarnação produz no Espírito não cessa de súbito, por ocasião do nascimento. Só gradualmente se dissipa, com o desenvolvimento dos órgãos."

Há um fato de observação, que apoia esta resposta. Os sonhos, numa criança, não apresentam o caráter dos de um adulto. Quase sempre pueril é o objeto dos sonhos infantis, o que indica de que natureza são as preocupações do respectivo Espírito.
381. Por morte da criança, readquire o Espírito, imediatamente, o seu precedente vigor?
“Assim tem que ser, pois que se vê desembaraçado de seu invólucro corporal”.

“Entretanto, não readquire a anterior lucidez, senão quando se tenha completamente separado daquele envoltório, isto é, quando mais nenhum laço exista entre ele e o corpo.”
382. Durante a infância sofre o Espírito encarnado, em consequência do constrangimento que a imperfeição dos órgãos lhe impõe?
"Não. Esse estado corresponde a uma necessidade, está na ordem da Natureza e de acordo com as vistas da Providência. É um período de repouso do Espírito."

383. Qual, para este, a utilidade de passar pelo estado de infância?
"Encarnado, com o objetivo de se aperfeiçoar, o Espírito, durante esse período, é mais acessível às impressões que recebe capazes de lhe auxiliarem o adiantamento, para o que devem contribuir os incumbidos de educá-lo."

384. Por que é o choro a primeira manifestação da criança ao nascer?
“Para estimular o interesse da genitora e provocar os cuidados de que há mister.

Não é evidente que se suas manifestações fossem todas de alegria, quando ainda não sabe falar, pouco se inquietariam os que o cercam com os cuidados que lhe são indispensáveis?
“Admirai, pois, em tudo a sabedoria da Providência.”
385. Que é o que motiva a mudança que se opera no caráter do indivíduo em certa idade, especialmente ao sair da adolescência? É que o Espírito se modifica?
“É que o Espírito retoma a natureza que lhe é própria e se mostra qual era”.

“Não conheceis o que a inocência das crianças oculta”. Não sabeis o que elas são, nem o que foram, nem o que serão. Contudo, afeições lhes tendem, as acaricias, como se fossem parcelas de vós mesmos, a tal ponto que se considera o amor que uma mãe consagra a seus filhos como o maior amor que um ser possa votar a outro. Donde nasce o meigo afeto, a terna benevolência que mesmo os estranhos sentem por uma criança? Sabeis? Não.
Pois bem! “Vou explicá-lo.”.
“As crianças são os seres que Deus manda a novas existências”. Para que não lhe possam imputar excessiva severidade, dá-lhes Ele todos os aspectos da inocência. Ainda quando se trata de uma criança de maus pendores, cobrem-se lhe as más ações com a capa da inconsciência. Essa inocência não constitui superioridade real com relação ao que eram antes, não. É a imagem do que deveriam ser e, se não o são, o consequente castigo exclusivamente sobre elas recai.
“Não foi, todavia, por elas somente que Deus lhes deu esse aspecto de inocência; foi também e, sobretudo por seus pais, de cujo amor necessita a fraqueza que as caracteriza”.
Ora, esse amor se enfraqueceria grandemente à vista de um caráter áspero e intratável, ao passo que, julgando seus filhos bons e dóceis, os pais lhes dedicam toda a afeição e os cercam dos mais minuciosos cuidados. Desde que, porém, os filhos não mais precisam da proteção e assistência que lhes foram dispensadas durante quinze ou vinte anos, surge-lhes o caráter real e individual em toda a nudez. Conservam-se bons, se eram fundamentalmente bons; mas, sempre irisados de matizes que a primeira infância manteve ocultos.
Como vedes, os processos de Deus são sempre os melhores e, quando se tem o coração puro, facilmente se lhes apreende a explicação.
Com efeito, ponderai que nos vossos lares possivelmente nascem crianças cujos Espíritos vêm de mundos onde contraíram hábitos diferentes dos vossos e dizei-me como poderiam estar no vosso meio esses seres, trazendo paixões diversas das que nutris inclinações, gostos, inteiramente opostos aos vossos; como poderiam enfileirar-se entre vós, senão como Deus o determinou, isto é, passando pelo tamis da infância? Nesta se vêm confundir todas as ideias, todos os caracteres, todas as variedades de seres gerados pela infinidade dos mundos em que medram as criaturas. E vós mesmos, ao morrerdes, vos achareis num estado que é uma espécie de infância, entre novos irmãos. Ao volverdes à existência extraterrena, ignorareis os hábitos, os costumes, as relações que se observam nesse mundo, para vós, novo. Manejareis com dificuldade uma linguagem que não estais acostumados a falar, linguagem mais vivaz do que o é agora o vosso pensamento. (319)
“A infância ainda tem outra utilidade”. Os Espíritos só entram na vida corporal para se aperfeiçoarem, para se melhorarem. A delicadeza da idade infantil os torna brandos acessíveis aos conselhos da experiência e dos que devam fazê-los progredir. Nessa fase é que se lhes pode reformar os caracteres e reprimir os maus pendores. Tal o dever que Deus impôs aos pais, missão sagrada de que terão de dar contas.
"Assim, portanto, a infância é não só útil, necessária, indispensável, mas também consequência natural das leis que Deus estabeleceu e que regem o Universo."
Livro dos espíritos: Alan Kardec...
Uma boa leitura...

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Princípios da Terapêutica Espírita




A terapêutica espírita se funda na concepção do Universo como estrutura unitária e infinita. Tudo se encadeia no Universo, como ensina Kardec. Dessa maneira, há uma constante relação de todas as coisas e todos os seres no Universo Infinito. Essa estrutura inimaginável encerra tudo em si mesma e por isso todos os recursos de que necessita estão nela mesma. Cada partícula do Universo reflete o todo e é formada à semelhança do Todo. Esse princípio de similaridade universal supera as nossas concepções e as nossas percepções fragmentárias. Foi da intuição natural da similaridade que surgiu a magia, como primeira tentativa de conquista e domínio, pelo homem, das energias da natureza. A magia das selvas, na sua simplicidade elementar, encerrava em potência toda a atualização futura. O homem primitivo percebeu a semelhança das coisas e dos seres nas suas experiências do mundo. Seu mundo era um fragmento do Universo e, para ele, não tinha limites. Na sua intuição globalizante (pois toda intuição é uma percepção global) começou a conquista do real pela conquista progressiva das coisas e seres semelhantes. Para atingir o pássaro no ar precisava de um instrumento voador e fez a flecha. Para curar uma ferida produzida pelo espinho de uma planta, recorreu ao suco de suas folhas. Para saciar os seus impulsos sexuais devia conquistar a mulher. Dessa satisfação nascia um novo ser, semelhante a ambos. A dialética da vida se insinuava naturalmente em sua consciência fragmentária, ligando os fatos entre si e desenvolvendo-lhe o tirocínio. Este o levaria às conquistas subseqüentes, infundindo-lhe o sentimento do mundo, na fusão da mente com a afetividade. Nessa fusão temos o homem ligado à terra pela similitude de seus interesses vitais, e ao mesmo tempo atraído ao céu pelo despertar de seus impulsos de transcendência. Por isso, desde as inscrições rupestres nas cavernas até às mais altas civilizações do Oriente e do Ocidente, o homem teve sempre a idéia de Deus em seu íntimo e em suas manifestações em busca da sociabilidade. A magia simpatética das selvas impregnara as religiões nascidas dessa dupla fonte, marcadas até hoje pelo impulso da lei de adoração a Deus. Com os pés enraizados na terra do mundo, ele voltará sempre para a luz, o fogo e a chuva que o alimentam e estimulam em suas atividades criadoras. O sentimento do mundo é a confirmação sincrética de suas percepções sensoriais e de sua intuição extra-sensorial do todo como unidade.
O estranho episódio da cura pelo pó de múmia, na História da Medicina, quando as múmias se esgotaram nas escavações do Egito e os terapeutas mágicos passaram a produzir múmias artificiais para os doentes, revela a que intensidade chegou a ligação do homem com a terra. A múmia representava ao mesmo tempo o homem e a terra, encerrando, portanto, os poderes curadores da natureza humana e os do solo, em cujas entranhas esses poderes se fundiam sob a ação misteriosa do tempo. Dessa mitologia aparentemente absurda nascera em tempos remotos, curtido pelo sentimento do mundo, o sentimento da fraternidade humana, da possibilidade das ações fluídicas entre os corpos dos homens vivos. Jesus empregaria então os seus poderes espirituais na transmissão das energias vitais do terapeuta ao doente, através do rito da imposição das mãos, que marcaria todo o período de desenvolvimento do Cristianismo até o Século XIX, em que Kardec reavivaria essa prática antiquíssima em plena era científica. Tinham razão os que temiam o restabelecimento das superstições do passado remoto, sem conhecer, e, portanto sem levar em conta, os princípios renovadores da concepção espírita do mundo. Eram realmente as velhas superstições que renasciam, mas pelas mãos de um cientista que as depurava de sua ganga de milênios para extrair-lhes apenas a essência.
Kardec anunciou que, no seu tempo, com o advento da revelação espírita, divina, pelas manifestações espirituais, e humana, pela elaboração científica dos homens, os erros do passado se transformariam em verdades. Esse é um exemplo das transformações previstas. Os erros de interpretação de um passado obscuro tornaram-se acertos ante as investigações do homem moderno. Assim podemos afirmar que o primeiro princípio da terapêutica espírita é de origem telúrica, fundado na realidade objetiva de um dos mais curiosos e intrigantes episódios da história da Medicina. A volta à Natureza, que Rousseau pregou na Educação, ironizado por Voltaire, Kardec efetivou, como pesquisador científico e médico, professor e diretor de estudos na Universidade de França. Ao seu lado, o Dr. Demeur, em sua clínica de Paris, dava a Kardec a sua assistência de observador e pesquisador dos efeitos curativos da nova terapêutica. Os médicos modernos tomaram o lugar de Voltaire no caso de Kardec, entendendo que Kardec desejava que o homem voltasse a andar de quatro, como dissera Voltaire sobre a revolução educacional de Rousseau. Não perceberam que essa volta à natureza não se referia às selvas, mas à natureza humana desfigurada pelos artificialismos da civilização. Se o objetivo pedagógico de Rousseau era psicológico e ético, principalmente ético, o de Kardec era também da mesma dupla natureza, abrangendo ao mesmo tempo a Psicologia e a Ética, duas coordenadas históricas e científicas a balizarem as transformações evolutivas dos tempos modernos.
Podemos enunciar o primeiro princípio da terapêutica espírita da seguinte maneira:
1)     A cura das doenças depende da ação natural das energias conjugadas do homem e da terra (psicológicas e mesológicas), na reconstituição do equilíbrio das energias naturais do doente.
Os demais princípios podem ser definidos na seqüência abaixo:
2)     A renovação de energias depende da ação conjugada dos espíritos terapeutas com o médium curador, que se põe à disposição dos espíritos para a transmissão dos fluidos energéticos através da prece e do passe.
3)     A eficácia do passe depende da boa-vontade do médium, que se entrega humildemente à ação dos espíritos, sem perturbá-la com gesticulações excessivas, limitando-se às que os espíritos lhe sugerirem no momento. Não temos nenhum conhecimento objetivo do processo de manipulação dos fluidos pelos espíritos e poderíamos perturbar-lhes a ação curadora com nossa intervenção pretensiosa. O médium é instrumento vivo e inteligente da ação espiritual, mas só deve utilizar a sua inteligência para compreender o seu papel de doador de fluidos, como se passa no caso da doação de sangue nos hospitais.
4)     A ação curadora dos espíritos não é mágica nem milagrosa; está sujeita a leis naturais que regem a estrutura psicobiológica do homem. A emissão de ectoplasma do corpo do médium para o corpo do doente revela-se atualmente, nas pesquisas russas, como emissão de plasma físico acompanhado de elementos orgânicos. As famosas pesquisas da Universidade de Kirov, na URSS, comprovaram e confirmaram as pesquisas de Richet, Schrenk-Notzing, Gustave Geley e Eugéne Osty, no século XIX, sobre a ação do plasma físico (quarto estado da matéria) nos efeitos físicos da mediunidade. Na teoria do perispírito, Kardec já havia também, com grande antecedência, constatado a importância da relação espírito-matéria nesses processos.
5)     Nos casos de cura à distância, sem a presença do médium, a eficácia depende das condições psicofísicas do doente, que permitem a colaboração do seu próprio organismo nas elaborações fluídicas do plasma, em conjugação com as energias espirituais dos espíritos terapeutas. Kardec considerava o perispírito como organismo semimaterial. Frederic Myers estudou a atividade da mente supraliminar (consciente) e subliminar (inconsciente) em todos esses processos então considerados como misteriosos.
6)     As chamadas operações espirituais (hoje paranormais) podem realizar-se por intervenção física do médium, dominado pelo espírito que dele se serve por influenciação mediúnica no transe hipnótico. Mas a simples ação mental do médium pode produzir efeitos físicos no paciente, como Rhine provou nas suas experiências com animais. Rhine resumiu os resultados de suas pesquisas no seguinte princípio: “A mente, que não é física, age por vias não físicas sobre a matéria.” Soal, Carington e outros verificaram que as atividades internas do organismo animal e humano (funções vegetativas e correlatas) são controladas por ação mental sobre o sistema nervoso, vascular e muscular. A teoria do dinamismo psíquico inconsciente de Geley se desenvolve nesse mesmo sentido.
O mistério teológico da encarnação transformou-se atualmente numa questão científica universalmente pesquisada nos maiores centros universitários do planeta. A terapia espírita está hoje respaldada pelas mais recentes e avançadas descobertas científicas. Os que pretendem rejeitá-la com argumentos se esquecem de que os problemas da ciência só podem ser resolvidos por meio de pesquisas e provas. Maldições e anátemas desvalorizaram-se totalmente num processo inflacionário de dois milênios. Não era sem razão a luta cruenta da Igreja contra o desenvolvimento científico. Ela se defendeu ferozmente do atrevimento dos cientistas porque agia sob a compulsão violenta do instinto de conservação. Mas a favor da ciência estavam as leis irresistíveis da evolução. A era científica nasceu ensangüentada dos calabouços medievais em que os mártires do progresso sofriam nas mãos dos inquisidores, à espera das fogueiras divinas em que seriam purificados. A Ciência avançou, apesar de tudo, derrotando os terroristas da magia negra, da antiga e temível Goécia que os próprios clérigos empregavam em suas lutas de política intestina. Coube ao coronel Albert de Rochas, diretor do Instituto Politécnico de Paris, pesquisar em laboratório os possíveis efeitos da magia negra, demonstrando o engano dos que a consideravam dotada de poder diabólico. O desprestígio da superstição permitiu aos médiuns, hoje chamados sujeitos paranormais (nem anormais, nem patológicos, nem diabólicos), transformarem-se nos instrumentos humanos da investigação científica das potencialidades da criatura humana. Atualmente a própria Igreja dispõe de organismos de pesquisa dos fenômenos que antes considerava como estigmas infamantes da maldição divina.
Quando a Academia de França reconheceu a realidade do magnetismo e seu interesse científico, mas mudando-lhe o nome para hipnotismo, Kardec escreveu um artigo sobre o fato na Revista Espírita, lembrando que o magnetismo cansara de bater à porta da Academia, sendo sempre enxotado. Por fim resolvera mudar de nome e entrar na casa pela porta dos fundos, sendo então recebido e aclamado pelos cientistas. O mesmo acontece agora com o Espiritismo, que, sendo batizado na universidade de Duke com o nome de Parapsicologia, teve entrada franca e entusiástica na URSS e no Vaticano. Na verdade, a Parapsicologia, com roupa nova, linguagem grega e seguindo as pegadas de Kardec, para atingir os seus mesmos objetivos, nada ofereceu de novo ao mundo atual além de sua roupagem tecnológica. Prestou, assim mesmo, um grande serviço ao mundo materialão, conseguindo despertar-lhe o interesse pelos problemas espirituais. Os materialistas e os religiosos formalistas tinham medo dos espíritos. Rhine conseguiu mostrar-lhes, por meios estatísticos, que todos somos espíritos. O medo se foi e com ele a ilusão da matéria desfeita na poeira atômica da Nova Física.

Herculano Pires

Ciência Espírita e suas implicações terapêuticas